Sinopse

Dois de Novembro traz um conto fictício de investigação, que fará o leitor realizar uma viagem pelo século XX, conforme os enigmas são desvendados. Procurei realizar um equilíbrio entre a ficção e a realidade, relacionando personagens com grandes personalidades do século passado até a atualidade. Normalmente o leitor verá fotografias ilustrativas dessas personalidades e também de símbolos das organizações que atuam ou atuaram nesse período. Qualquer evento futuro que venha a ocorrer no mundo que se iguale às fábulas desse livro não passará de mera coincidência!

Capítulo 14; Síndrome de Estocolmo

SÍNDROME DE ESTOCOLMO


         8 de agosto, E. U. A.

     Kim acordou por volta das oito da manhã, e lembrou-se imediatamente de Versago, sabia que ele estava numa missão muito arriscada. Se infiltrar na base inimiga não era para qualquer um, ele já havia feito isso uma outra vez, trabalhando ao seu lado. Suas habilidades de interagir no meio do crime organizado eram muito boas, porém, a preocupação sempre batia.         
       Demarco já estava acordado desde a seis da manhã, mas Kim não havia descansado muito nos últimos dias,  por isso não acordou tão cedo. Ela também meditava sobre as fitas que ouviu gravadas por um detetive que Arnold Anderson colocou atrás de Mara. Onde ela estaria naquele exato momento? Fazendo e planejando o quê?

       Depois de tomar seu café matinal, Kim, Demarco e Ernest se reuniram no escritório de Ernest no prédio da CIA, no estado da Virgínia, para discutir sobre os últimos acontecimentos com o Presidente da América.

         Ernest –Senhora Kim, Demarco, o presidente dos Estados Unidos da América entrou em contato conosco, pedindo para informar-lhe de tudo que está acontecendo. Ele está na linha um, agora.

         Ligando o viva-voz do telefone, Ernest deu os primeiros cumprimentos ao Presidente Americano.

         Ernest –Bom dia, senhor Presidente, estou aqui na sala com Demarco O’briam, homem que nomeei para ajudar a russa Kim Tokarev, agente da FTF da Interpol, que está investigando o caso.

         Presidente –Kim, prossiga!

         Kim, em russo, começou a falar desde o início a respeito da investigação com Versago, da operação que prendeu Mikhail Usvarovisck no Cazaquistão e como a investigação chegou até os Estados Unidos, envolvendo o governador Nova Iorquino Arnold Anderson, até as fitas de áudio. O presidente não precisava de intérprete, pois sabia falar o idioma russo.

         A conferência com o presidente Americano durou cerca de três horas e meia. Ouvindo trechos da conversa das fitas achadas na casa do governador, ela terminou do seguinte modo:

         Kim –E agora, neste exato momento, senhor Presidente, há um americano infiltrado nesta zona militar suspeita, próximo de Petropavlosk, no Cazaquistão, o meu parceiro Versago. E eu estou aqui no seu país, procurando deter Mara e resgatar seu governador.

         Presidente –Preciso que entre em contato com o escritório geral da Interpol, e peça a eles para me mandarem um dossiê de toda a operação no momento, com as fichas de Mara e suspeitos, e seus agentes envolvidos na investigação. Quero estar a par de toda a situação.

         Kim –Sim senhor, senhor Presidente.

         Presidente –Paul, cada pista, cada prova, cada detalhe eu quero que você me informe. Você está responsável de me passar toda informação nova possível, para que me mantenha atualizado dos fatos.

         Ernest –Sim senhor, senhor presidente.

         Ao sair da sala de Ernest, um agente da CIA meio apressado disse que recebeu denúncias de onde o governador e Mara poderiam estar:

         -Senhor Ernest, recebemos uma denúncia anônima dizendo que Mara e o governador Anderson estão escondidos na Catedral de São Patrício na Quinta Avenida, Nova Iorque.

         Ernest – Procede, tal denúncia?

         - Creio que sim, a informação vem do departamento de polícia de Nova Iorque.

         Ernest –Rápido, chame a equipe da SWAT*

SWAT - Special Weapon And Tactics
Ações e Táticas Especiais
         Em trinta minutos, já estava tudo preparado, agentes secretos vigiavam a Catedral da rua W 50th Str, encruzilhada com a Quinta Avenida e a Avenida Madison, que passava por trás da Catedral.

      Ernest, Kim, e Demarco estavam no prédio da CIA, no estado da Virgínia. Eles tiveram de pegar um jato de volta à Nova Iorque para fazerem parte da missão de resgate. 

    Quando chegaram ao final de tarde deste dia, o FBI com o esquadrão da SWAT já monitoravam o local há horas. Quando colocaram Ernest a par de toda a situação, imediatamente ele passou a bolar um plano de invasão e reconhecimento. O agente coordenador que estava monitorando o lugar, disse a Ernest:

         -Temos homens por toda a parte, vestimos alguns homens normalmente do cotidiano nova iorquino, para entrar e fazer o reconhecimento do local antes de tomarmos qualquer ação. O padre residente da catedral não está em lugar algum.

         Com as informações, Ernest montou um plano de invasão:

         Ernest –Temos agentes espalhados por toda parte, o alvo é Mara, sinal verde para alvejá-la se necessário, temos de prezar a vida do governador. Pessoal, só disparem se tiverem certeza.

Catedral de São Patrício em Nova Iorque
         Demarco se preparava para entrar. Ele não usaria nenhum tipo de proteção, estava com uma camisa e calça sociais, e uma escuta escondida. A única arma que levara era uma pequena pistola no bolso da calça, por que não fazia volume.

         Quando entrou, tudo parecia normal, ele se sentou num dos bancos e aguardou um tempo. Viu alguns homens com aquelas grandes batinas, passando de um lado para o outro, parecendo estar vigiando algo. Era tudo muito suspeito, então ele passou a conversar com Ernest, via codec.

         Demarco –Senhor, não dá para notar, só que acredito que estou diante de sentinelas disfarçadas de bispos. Eles podem estar carregando pistolas e armas de tal porte, debaixo de toda aquela roupa.

         Ernest –Entendido. Vou pedir para os atiradores frisarem os bispos.

FBI - Federal Bureau Investigation
Birô de Investigação Federal
         Kim –Demarco, você consegue abater um desses bispos para termos certeza?

         Kim estava do lado de fora uns dois quarteirões num trailer, juntamente com Ernest, acompanhando tudo.

         Demarco –Acho que posso.

         Demarco cutucou seus próprios olhos para poder começar a chorar, foi em direção a um dos bispos com lágrimas nos olhos, e quando chegou próximo, sacou sua pistola, encostou na barriga do bispo e cochichou nos seus ouvidos:

         Demarco –Não faça nenhum movimento brusco ou eu atiro, continue e vá até a capela.

         Entrando na Capela, deu-lhe uma coronhada fazendo-o desmaiar, e averiguou seu corpo. Realmente, ele tinha uma submetralhadora MP5K pendurada no pescoço, provando que tinha algo acontecendo ali.

        
Heckler & Koch MP5K
         Demarco –Senhor, está comprovado, temos uma atividade dentro da Catedral.

         Ernest –Okay Demarco, bom trabalho, vamos entrar.

         Kim –Se Mara ou Anderson estiverem aí, eles estarão nas catacumbas. Quando tudo começar, corra para lá.

         Demarco –Positivo.

         Assim, uma equipe da SWAT entrou. Quando os homens vestidos de bispos tentaram fazer qualquer movimento brusco, foram alvejados pelos atiradores, que de fora da Catedral tinham eles sob sua mira. Demarco correu até as catacumbas, não havia nenhum vigilante no caminho. Quando abriu uma porta de madeira, o governador estava lá dentro, preso a uma cadeira. Tudo tinha acabado, Mara não estava no local.

         Demarco o soltou e tirou a mordaça de sua boca. Logo, o governador passou a reclamar:

         Anderson –O que vocês estão fazendo aqui?! Não eram pra vocês virem me resgatar, seus idiotas!

         Demarco –Calma, você está a salvo agora.

         Saindo das catacumbas e subindo para o andar térreo da Catedral, Anderson viu os corpos dos seus raptores mortos, e ele continuou a reclamar:

         Anderson –Droga, vocês mataram todo mundo, por que vocês fizeram isso?!

         Arnold Anderson estava muito estranho, parecia que ele preferia ter ficado com os sequestradores, defendia-os a todo o momento. Ninguém entendia o por quê.

         O governador finalmente foi transportado em segurança, até o prédio da CIA, no estado da Virgínia, onde pudesse ser medicado. Embora o resultado do resgate tivesse sido um sucesso, Kim desconfiava de algo. Tinha sido muito fácil haver somente três vigias disfarçados e Mara não estar no local. Mesmo assim, comemorou o feito. Toda a Catedral foi isolada, e não demorou muito, a imprensa cercou o local, gerando aquele trânsito na Quinta Avenida com a rua W 50th Str.

         Antes de voltar para a CIA, Kim foi até o local do cativeiro. A Catedral estava repleta de agentes do FBI, e quando ela desceu ao andar inferior, nas catacumbas, reparou um lugar triste com luzes piscando e goteiras por toda parte, que deixavam o lugar úmido. No local onde Anderson estava, era muito escuro. Sem uma lanterna, Ela pediu para um dos agentes fornecer-lhe uma. 

         Iluminando o local, viu sobre uma mesa o que seriam alguns fragmentos de papel. Ela pediu para recolherem tudo e levar para análise. No chão, havia gotículas de sangue, mostrando que deve ter ocorrido uma sessão de tortura por parte dos sequestradores. Kim sacou do bolso um lenço que costumava usar, passou nas gotículas de sangue e colocou dentro de um saco plástico. Assim, terminou seu trabalho por ali e voltou para a CIA.

         Pelo fato de o governador ter sido removido do local imediatamente, e Kim ter visitado o cativeiro onde estava sendo mantido, ela chegou à CIA quase uma hora depois dele. Logo quis vê-lo, mas antes, Demarco chamou-a de canto para falar-lhe:

         Demarco –Ele não vai colaborar conosco tão cedo.

         Kim –Não?!

         Demarco –Segundo os primeiros diagnósticos, Anderson está sofrendo de um trauma psicológico pós-sequestro, e os sintomas mostram ser síndrome de Estocolmo.

         Kim –Como pode ser?!

         Demarco –Incrível, não é?! Pois então, os médicos disseram que devemos deixá-lo descansar e dar um tempo, até ele se recuperar.

         Kim –E esse tempo, seria quanto?

         Demarco –Isso pode variar de acordo com o nível da síndrome, horas, dias, talvez.

         Kim –Dias?! Não temos dias!

         Tal insanidade de Arnold Anderson prejudicou os objetivos de Kim. Não conformada, foi até Ernest pedir uma autorização para tentar conversar com ele, porém, Ernest achou melhor não autorizá-la. Ele apostava na melhora de Anderson sem interferir nos diagnósticos dos médicos da CIA. Ele não podia burlar a burocracia americana.

         Assim, Kim foi até Demarco e pediu:

         Kim –Demarco, me fale um pouco desta síndrome.

Kreditbanken em Norrmalmstorg em Estocolmo na Suécia
durante o assalto em 1973
         Demarco –Não sei muito a respeito, mas quando eu estava na academia, tive de aprender algo sobre. Sei que seu nome é referente ao famoso assalto a banco de Norrmalmstorg em Estocolmo, na Suécia, onde as vítimas do sequestro de seis dias defenderam seus raptores durante o processo judicial que se seguiu.

         Kim –Como aconteceu?

         Demarco –Em 1973, dois homens invadiram o Kreditbanken de Norrmalmstorg, em Estocolmo, com a intenção de roubá-lo, pois a polícia chegou rápido ao local e trocou tiros com esses homens. Em seguida, fizeram quatro pessoas reféns, e a situação perdurou por pelo menos seis dias. Armado, o raptor Jan Erik Olsson parecia estar no comando do cárcere, mantendo os reféns dentro do cofre, durante parte do tempo com explosivos presos ao corpo e em outros momentos com cordas em volta dos seus pescoços. Quando a polícia tentou realizar uma tentativa de resgatar os reféns, os próprios reféns impediram tal ação, e repeliram o ataque dos policiais, culpando-os por se encontrarem em tal situação e não aos raptores. Quando tudo acabou, um dos reféns capturados criou até um fundo para cobrir os custos da defesa judicial dos raptores! Assim nascia a síndrome de Estocolmo.
Carcere do Assalto a Banco em Estocolmo. A Direita em Pé, Jan-Erik Olsson o Sequestrador.

         Kim –Como uma pessoa pode proteger ou se aliar com o seu agressor, que envolveu seu pescoço numa corda e prendeu explosivos no seu corpo?!

Patricia Campbell Hearst (Patty Hearst)
         Demarco –É a síndrome, Kim. Este caso não é o único do gênero, há outros casos, como a de Patty Hearst, que também foi vítima dum sequestro de assalto à banco, e depois do processo foi viver ao lado de seus raptores, sendo cúmplice de outros assaltos. A literatura moderna também enfatiza casos semelhantes, como o de “A Bela e a Fera”, que narra a história duma moça inteligente e  bonita que acaba vítima de cárcere privado de uma fera num castelo, e por fim desenvolve um relacionamento afetivo, e se casa com a fera.


         Kim –É difícil compreender...
Patty Hearst, durante um assalto a banco.

      Kim não ficou conformada com tal situação de Arnold Anderson, seu objetivo era extrair o máximo de informação possível que levasse à captura de Mara. 
     
     Outro detalhe que a incomodava era o que Ernest havia dito sobre Anderson na mídia. Logo apareceria um advogado para dificultar mais ainda as coisas, no caso de um outro interrogatório.

         O tempo passava, eventos aconteciam, e a grande data estabelecida por Naid e Mara se aproximava. As coisas pareciam mais difíceis para Mara, que já tinha seu rosto estampado em todas as colunas de jornais americanos. Nainenejad, no entanto, tinha um obstáculo que não sabia. Dentro da zona militar que estava sob seu comando, no Cazaquistão, ele planejara destruir todas as embaixadas americanas e britânicas possíveis na Ásia.

         Uma revolução estava prestes a acontecer...

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