SÍNDROME DE ESTOCOLMO
8 de
agosto, E. U. A.
Kim acordou por volta das oito da manhã, e lembrou-se imediatamente de Versago, sabia que ele estava numa missão muito
arriscada. Se infiltrar na base inimiga não era para qualquer um, ele já havia
feito isso uma outra vez, trabalhando ao seu lado. Suas habilidades de interagir
no meio do crime organizado eram muito boas, porém, a preocupação sempre batia.
Demarco já estava acordado desde a seis da manhã, mas Kim não havia descansado muito nos
últimos dias, por isso não acordou tão cedo. Ela também meditava sobre as fitas
que ouviu gravadas por um detetive que Arnold Anderson colocou atrás de Mara. Onde ela estaria naquele exato momento? Fazendo e planejando o quê?
Depois de tomar seu café matinal, Kim,
Demarco e Ernest se reuniram no escritório de Ernest no prédio da CIA, no
estado da Virgínia, para discutir sobre os últimos acontecimentos com o
Presidente da América.
Ernest
–Senhora Kim, Demarco, o presidente dos Estados Unidos da América entrou em
contato conosco, pedindo para informar-lhe de tudo que está acontecendo. Ele está na linha um, agora.
Ligando o viva-voz do telefone, Ernest
deu os primeiros cumprimentos ao Presidente Americano.
Ernest
–Bom dia, senhor Presidente, estou aqui na sala com Demarco O’briam, homem que
nomeei para ajudar a russa Kim Tokarev, agente da FTF da Interpol, que está investigando o caso.
Presidente –Kim, prossiga!
Kim, em russo, começou a falar desde o
início a respeito da investigação com Versago, da operação que prendeu Mikhail Usvarovisck
no Cazaquistão e como a investigação chegou até os Estados Unidos, envolvendo o
governador Nova Iorquino Arnold Anderson, até as fitas de áudio. O presidente
não precisava de intérprete, pois sabia falar o idioma russo.
A conferência com o presidente
Americano durou cerca de três horas e meia. Ouvindo trechos da conversa das
fitas achadas na casa do governador, ela terminou do seguinte modo:
Kim
–E agora, neste exato momento, senhor Presidente, há um americano infiltrado
nesta zona militar suspeita, próximo de Petropavlosk, no Cazaquistão, o meu
parceiro Versago. E eu estou aqui no seu país, procurando deter Mara e resgatar seu
governador.
Presidente –Preciso que entre em contato com o escritório geral da Interpol, e
peça a eles para me mandarem um dossiê de toda a operação no momento, com as fichas
de Mara e suspeitos, e seus agentes envolvidos na investigação. Quero estar a
par de toda a situação.
Kim
–Sim senhor, senhor Presidente.
Presidente –Paul, cada pista, cada prova, cada detalhe eu quero que você me
informe. Você está responsável de me passar toda informação nova possível, para
que me mantenha atualizado dos fatos.
Ernest
–Sim senhor, senhor presidente.
Ao sair da sala de Ernest, um agente da
CIA meio apressado disse que recebeu denúncias de onde o governador e Mara poderiam
estar:
-Senhor Ernest, recebemos uma denúncia
anônima dizendo que Mara e o governador Anderson estão escondidos na Catedral
de São Patrício na Quinta Avenida, Nova Iorque.
Ernest – Procede, tal denúncia?
- Creio que sim, a informação vem do
departamento de polícia de Nova Iorque.
Ernest
–Rápido, chame a equipe da SWAT*
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| SWAT - Special Weapon And Tactics Ações e Táticas Especiais |
Em trinta minutos, já estava tudo
preparado, agentes secretos vigiavam a Catedral da rua W 50th Str, encruzilhada
com a Quinta Avenida e a
Avenida Madison, que passava por trás da Catedral.
Ernest, Kim, e Demarco estavam no prédio da CIA, no
estado da Virgínia. Eles tiveram de pegar um jato de volta à Nova Iorque para
fazerem parte da missão de resgate.
Quando chegaram ao final de tarde deste
dia, o FBI com o esquadrão da SWAT já monitoravam o local há horas. Quando
colocaram Ernest a par de toda a situação, imediatamente ele passou a bolar um
plano de invasão e reconhecimento. O agente coordenador que estava monitorando
o lugar, disse a Ernest:
-Temos homens por toda a parte,
vestimos alguns homens normalmente do cotidiano nova iorquino, para entrar e
fazer o reconhecimento do local antes de tomarmos qualquer ação. O padre
residente da catedral não está em lugar algum.
Com as informações, Ernest montou um
plano de invasão:
Ernest –Temos agentes espalhados por toda parte, o alvo é Mara, sinal verde
para alvejá-la se necessário, temos de prezar a vida do governador. Pessoal, só
disparem se tiverem certeza.
Demarco se preparava para entrar. Ele
não usaria nenhum tipo de proteção, estava com uma camisa e calça sociais, e uma
escuta escondida. A única arma que levara era uma pequena pistola no bolso da
calça, por que não fazia volume.
Quando entrou, tudo parecia normal, ele se sentou num dos bancos e aguardou um tempo. Viu alguns homens com aquelas
grandes batinas, passando de um lado para o outro, parecendo estar vigiando algo. Era tudo muito suspeito, então ele passou a conversar com Ernest, via codec.
Demarco
–Senhor, não dá para notar, só que acredito que estou diante de sentinelas
disfarçadas de bispos. Eles podem estar carregando pistolas e armas de tal
porte, debaixo de toda aquela roupa.
Ernest –Entendido. Vou pedir para os atiradores frisarem os bispos.
Kim –Demarco, você consegue abater um desses
bispos para termos certeza?
Kim estava do lado de fora uns dois
quarteirões num trailer, juntamente com Ernest, acompanhando tudo.
Demarco
–Acho que posso.
Demarco cutucou seus próprios olhos para
poder começar a chorar, foi em direção a um dos bispos com lágrimas nos olhos, e
quando chegou próximo, sacou sua pistola, encostou na barriga do bispo e cochichou
nos seus ouvidos:
Demarco
–Não faça nenhum movimento brusco ou eu atiro, continue e vá até a capela.
Entrando na Capela, deu-lhe uma
coronhada fazendo-o desmaiar, e averiguou seu corpo. Realmente, ele tinha uma
submetralhadora MP5K pendurada no pescoço, provando que tinha algo acontecendo
ali.
Demarco
–Senhor, está comprovado, temos uma atividade dentro da Catedral.
Ernest –Okay Demarco, bom trabalho, vamos entrar.
Kim
–Se Mara ou Anderson estiverem aí, eles estarão nas catacumbas. Quando tudo começar, corra para lá.
Demarco
–Positivo.
Assim, uma equipe da SWAT entrou. Quando os homens vestidos de bispos tentaram fazer qualquer movimento brusco, foram alvejados pelos atiradores, que de fora da Catedral tinham eles sob sua mira.
Demarco correu até as catacumbas, não havia nenhum vigilante no caminho. Quando
abriu uma porta de madeira, o governador estava lá dentro, preso a uma cadeira.
Tudo tinha acabado, Mara não estava no local.
Demarco o soltou e tirou a mordaça de
sua boca. Logo, o governador passou a reclamar:
Anderson
–O que vocês estão fazendo aqui?! Não eram pra vocês virem me resgatar, seus
idiotas!
Demarco –Calma, você está a salvo agora.
Saindo das catacumbas e subindo para o
andar térreo da Catedral, Anderson viu os corpos dos seus raptores mortos, e
ele continuou a reclamar:
Anderson
–Droga, vocês mataram todo mundo, por que vocês fizeram isso?!
Arnold Anderson estava muito estranho,
parecia que ele preferia ter ficado com os sequestradores, defendia-os a todo o
momento. Ninguém entendia o por quê.
O governador finalmente foi
transportado em segurança, até o prédio da CIA, no estado da Virgínia, onde
pudesse ser medicado. Embora o resultado do resgate tivesse sido um sucesso, Kim
desconfiava de algo. Tinha sido muito fácil haver somente três vigias disfarçados e Mara não
estar no local. Mesmo assim, comemorou o feito. Toda a Catedral foi isolada, e
não demorou muito, a imprensa cercou o local, gerando aquele trânsito na Quinta
Avenida com a rua W 50th Str.
Antes de voltar para a CIA, Kim foi
até o local do cativeiro. A Catedral estava repleta de agentes do FBI, e quando
ela desceu ao andar inferior, nas catacumbas, reparou um lugar triste com luzes
piscando e goteiras por toda parte, que deixavam o lugar úmido. No local onde
Anderson estava, era muito escuro. Sem uma lanterna, Ela pediu para um dos agentes
fornecer-lhe uma.
Iluminando o local, viu sobre uma mesa o que seriam alguns
fragmentos de papel. Ela pediu para recolherem tudo e levar para análise. No
chão, havia gotículas de sangue, mostrando que deve ter ocorrido uma sessão de tortura por parte
dos sequestradores. Kim sacou do bolso um lenço que costumava usar, passou nas
gotículas de sangue e colocou dentro de um saco plástico. Assim, terminou seu
trabalho por ali e voltou para a CIA.
Pelo fato de o governador ter sido
removido do local imediatamente, e Kim ter visitado o cativeiro onde estava
sendo mantido, ela chegou à CIA quase uma hora depois dele. Logo quis vê-lo,
mas antes, Demarco chamou-a de canto para falar-lhe:
Demarco
–Ele não vai colaborar conosco tão cedo.
Kim
–Não?!
Demarco
–Segundo os primeiros diagnósticos, Anderson está sofrendo de um trauma psicológico
pós-sequestro, e os sintomas mostram ser síndrome de Estocolmo.
Kim
–Como pode ser?!
Demarco
–Incrível, não é?! Pois então, os médicos disseram que devemos deixá-lo
descansar e dar um tempo, até ele se recuperar.
Kim
–E esse tempo, seria quanto?
Demarco
–Isso pode variar de acordo com o nível da síndrome, horas, dias, talvez.
Kim
–Dias?! Não temos dias!
Tal insanidade de Arnold Anderson
prejudicou os objetivos de Kim. Não conformada, foi até Ernest pedir uma
autorização para tentar conversar com ele, porém, Ernest achou melhor não
autorizá-la. Ele apostava na melhora de Anderson sem interferir nos
diagnósticos dos médicos da CIA. Ele não podia burlar a burocracia americana.
Assim, Kim foi até Demarco e pediu:
Kim
–Demarco, me fale um pouco desta síndrome.
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| Kreditbanken em Norrmalmstorg em Estocolmo na Suécia durante o assalto em 1973 |
Demarco
–Não sei muito a respeito, mas quando eu estava na academia, tive de aprender algo
sobre. Sei que seu nome é referente ao famoso assalto a banco de Norrmalmstorg
em Estocolmo, na Suécia, onde as vítimas do sequestro de seis dias defenderam
seus raptores durante o processo judicial que se seguiu.
Kim –Como
aconteceu?
Demarco
–Em 1973, dois homens invadiram o Kreditbanken de Norrmalmstorg, em Estocolmo,
com a intenção de roubá-lo, pois a polícia chegou rápido ao local e trocou
tiros com esses homens. Em seguida, fizeram quatro pessoas reféns, e a situação
perdurou por pelo menos seis dias. Armado, o raptor Jan Erik Olsson parecia estar
no comando do cárcere, mantendo os reféns dentro do cofre, durante parte do
tempo com explosivos presos ao corpo e em outros momentos com cordas em volta dos
seus pescoços. Quando a polícia tentou realizar uma tentativa de resgatar os
reféns, os próprios reféns impediram tal ação, e repeliram o ataque dos
policiais, culpando-os por se encontrarem em tal situação e não aos raptores.
Quando tudo acabou, um dos reféns capturados criou até um fundo para cobrir os
custos da defesa judicial dos raptores! Assim nascia a síndrome de Estocolmo.
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| Carcere do Assalto a Banco em Estocolmo. A Direita em Pé, Jan-Erik Olsson o Sequestrador. |
Kim
–Como uma pessoa pode proteger ou se aliar com o seu agressor, que envolveu seu
pescoço numa corda e prendeu explosivos no seu corpo?!
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| Patricia Campbell Hearst (Patty Hearst) |
Demarco
–É a síndrome, Kim. Este caso não é o único do gênero, há outros casos, como a de
Patty Hearst, que também foi vítima dum sequestro de assalto à banco, e depois do
processo foi viver ao lado de seus raptores, sendo cúmplice de outros assaltos. A literatura moderna também enfatiza casos semelhantes, como o de “A Bela e a
Fera”, que narra a história duma moça inteligente e bonita que acaba vítima de cárcere privado de
uma fera num castelo, e por fim desenvolve um relacionamento afetivo, e se casa
com a fera.
Kim não ficou conformada com tal
situação de Arnold Anderson, seu objetivo era extrair o máximo de informação
possível que levasse à captura de Mara.
Outro detalhe que a incomodava era o
que Ernest havia dito sobre Anderson na mídia. Logo apareceria um advogado para
dificultar mais ainda as coisas, no caso de um outro interrogatório.
O tempo passava, eventos aconteciam, e a
grande data estabelecida por Naid e Mara se aproximava. As coisas pareciam mais
difíceis para Mara, que já tinha seu rosto estampado em todas as colunas de
jornais americanos. Nainenejad, no entanto, tinha um obstáculo que não sabia. Dentro da zona militar que estava sob seu comando, no Cazaquistão, ele planejara
destruir todas as embaixadas americanas e britânicas possíveis na Ásia.
Uma revolução estava prestes a
acontecer...








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