Sinopse

Dois de Novembro traz um conto fictício de investigação, que fará o leitor realizar uma viagem pelo século XX, conforme os enigmas são desvendados. Procurei realizar um equilíbrio entre a ficção e a realidade, relacionando personagens com grandes personalidades do século passado até a atualidade. Normalmente o leitor verá fotografias ilustrativas dessas personalidades e também de símbolos das organizações que atuam ou atuaram nesse período. Qualquer evento futuro que venha a ocorrer no mundo que se iguale às fábulas desse livro não passará de mera coincidência!

Capítulo 2; Vítima da Guerra




VÍTIMA DA GUERRA

O Afeganistão é um país Asiático devastado pelas guerras que ali já ocorreram. Desde a sua independência em 1921, milícias, facções extremistas, etnias e resistências políticas passaram por lá, guerreando umas contra as outras. Até a guerra fria já fez deste país palco dos conflitos entre a antiga União das Repúblicas Soviéticas Socialistas (U.R.S.S.) e os Estados Unidos da América (E.U.A.).
           
Babrak Karmal.
Presidente Afegão de
(1979 - 1986)
        Nainenejad Abdo Rhoemer morava em Mirbachakot, junto de seu pai. O pai de Naid era membro da facção Parcham, liderada na época por Babrak Karmal, que tomou o poder com o apoio das tropas soviéticas, dando início à obstinada resistência dirigida pelos Mudjahidin em dezembro de 1979. 
      Nesta época, Naid já tinha quinze anos e cuidava da perfumaria, enquanto seu pai resolvia os assuntos políticos referentes à facção Parcham. Embora fosse político, este pai nunca misturou trabalho com a educação do seu filho e ainda o incentivava a estudar os escritos sagrados do Alcorão. 

   Isso explicava a existência de um rifle soviético guardado em sua casa, que foi o motivo de Naid ter levado uma surra de seu pai quando tinha quatorze anos de idade. Ele tinha pegado o rifle para brincar e foi castigado por isso, foi a única vez que apanhou de seu pai.

Alcorão - (Qur'ãn, o livro sagrado
muçulmano erigido por Maomé.
       Dez anos mais tarde, com algumas mudanças no cenário político Afegão, os defensores de um Estado islâmico passaram a ser apoiados pelo exército Paquistanês, pelos muçulmanos árabes e pela Arábia Saudita, que com uma posição violentamente antiocidental, dirigiram muitos ataques contra os Mudjahidin. Seu pai nesta época já havia se decepcionado com tanto ódio e luta pelo poder que se converteu definitivamente ao Islã, abandonando tudo referente à política e dedicando-se na criação de seu filho.

Gulbuddin Hekmatyar.
Fundador e comandante
e líder partidário
dos Mudjahidin.
     Apenas sendo telespectador sobrevivente da história do Afeganistão, Naid e seu pai acompanhavam os eventos que marcavam tal contexto Afegão. Em 1992, os Mudjahidin finalmente tomaram o controle do país proclamando o Estado Islâmico do Afeganistão. Porém, o líder radical fundamentalista Gulbuddin Hekmatyar não aceitava o novo governo, e por isso bombardeou a capital Cabul, destruindo a perfumaria da família Rhoemer.
        
    Com tanta violência e guerra, Naid em sua fase adulta não conseguia encontrar uma esposa para si. Desde sua adolescência, nos anos 80, a população Afegã diminuiu drasticamente devido ao número de perdas humanas e à crescente massa de refugiados abandonando o país, na tentativa de fugir dos combates étnicos. Ele só veio a conhecer a mãe de seus filhos após reerguer os negócios da família em Cabul. 

 Em 1995, surgiu a milícia estudantil fundamentalista islâmica do Talibã, que agravou muito os antigos conflitos étnicos do país e tudo isso impedia o progresso estatal, mergulhando o povo pobre cada vez mais na miséria e aumentando a massa de refugiados. Os governantes, com seus interesses egoístas, não investiam em escolas, hospitais, infraestrutura etc. O pai de Naid nesta época já com idade avançada, teve de ser internado nas instalações da Cruz Vermelha que já atuava no país.
Bandeira do Taleban,
com a chahada ou profissão
de fé dos muçulmanos.
  
  Em comparação com as classes que há no Afeganistão, Naid se encontrava numa posição até privilegiada. Herdando o negócio do seu pai, passou a administrar uma perfumaria onde vendia fragrâncias em frascos de cristais egípcios. Sua maior freguesia eram estrangeiros, europeus e latino-americanos, normalmente jornalistas e repórteres de documentários que passavam sempre por ali realizando suas matérias televisivas.
Comitê Internacional da Cruz Vermelha.
É uma organização humanitária,
independente e neutra, que se esforça
em proporcionar proteção e assistência
às vitimas de guerras e outras situações
de violência.
  Quando Naid casou-se, ele teve dois filhos nos primeiros anos. Um detalhe interessante na vida de casado é que ele não oprimia sua esposa em duras tradições muçulmanas. Não só no Afeganistão, há até hoje uma taxa de suicídio muito alta por parte das esposas que não conseguem mais viver sobre tais circunstâncias naqueles países cuja religião oficial é o islamismo.

Assim, Naid não era frequentador assíduo de sinagogas nem mesquitas, não expressava firmemente sua fé em longas demonstrações como é de costume do islã, até porque as decepções de seu pai lhe ensinaram a não ser radical. Num país tão pobre tecnologicamente, ele não sabia do poder da informação, conviveu o tempo todo com a destruição e a morte, mas nunca sentiu na pele o que é perder um ente querido. 
       Sem informação, não fazia a mínima ideia dos motivos de tantos conflitos presentes em sua terra natal. Ensinado pelo seu pai, nutriu um pensamento único que dizia: “A guerra não é nossa, por que se envolver?”.

  Este pai, embora se considerando membro da religião islã, não seguia todos os costumes desta, porém, o básico ele exercia, como rezar a Alfátiha cinco vezes por dia, e também tinha o costume de ler com seus filhos as suratas do Alcorão.

 Contudo, Naid era um homem bom naquilo em que acreditava, era dedicado ao seu trabalho, e sua família é o que mais lhe importava. Seu pai, internado na Cruz Vermelha, era seu ídolo, a pessoa que mais amava.

    Imaginem o semblante de Naid como um belo dia de sol e nuvens brancas pelo o que havia conquistado até aqui. Não, ele não tinha do que reclamar, era feliz, porém, como que de repente esse dia ensolarado fosse coberto por densas nuvens negras que traziam uma interminável tempestade, a vida deste homem estava para mudar.
        
     Onze de setembro de 2001, atentados terroristas derrubam as duas torres gêmeas do “World Trade Center” nos Estados Unidos, e milhares morrem. Semanas após os atentados, autoridades do governo americano afirmam que os ataques foram atribuídos ao grupo terrorista Al Qaeda, onde seu líder Osama Bin Laden, poderia estar situado no Afeganistão. 

      Um ano mais tarde, os americanos posicionaram navios de guerra no oceano índico próximo de onde eles supostamente afirmaram ter vindo as ameaças, assim, começou o bombardeio atrás de vingança e para procurar o responsável pelos ataques às torres gêmeas.
Torres Gêmeas do World Trade Center, antes dos atentados de 11 de setembro de 2001
        
    Naid e sua família presenciaram o início dos ataques, só que eles ao menos sabiam o porquê de mais esta guerra que havia iniciado. O pai de Naid ainda estava internado nas instalações da Cruz Vermelha nesta época. Certa vez, durante mais um episódio dos ataques e bombardeios americanos nas cavernas para aniquilar os terroristas, Naid levou sua família para visitar seu pai internado, a quem tanto amava.

     Isso já era costumeiro da parte de Naid, desde quando seu pai fora internado para tratar da saúde. Neste dia, porém, um problema no comércio da família fez com que ele se atrasasse um pouco, assim, sua esposa e filhos foram na dianteira e esperariam por ele lá.

Bandeira da Al-Qaeeda.
   Como em toda guerra há seus efeitos colaterais, esta com sua alta tecnologia, não seria diferente. Os americanos usavam o que chamavam de míssil inteligente “Tomahawks” para não haver erros, numa guerra chamada de guerra cirúrgica. Só que um destes mísseis inteligentes errou, e acertou as instalações da Cruz Vermelha, provocando muitas baixas.

Osama bin Laden.
Ex-Líder da Al-Qaeeda.
      Naid, que chegou a ver a explosão de longe, saiu correndo em direção à Cruz Vermelha. Chegando lá, se deparou com cenas horríveis e muito fortes, pessoas gritavam na agonia dos seus membros mutilados, havia muito sangue misturado com poeira dos destroços e fogo. Gritando pelo nome de seu pai, esposa e filhos, Naid não conseguia ouvir uma resposta.

     Foi quando num canto qualquer conseguiu reconhecer os corpos do seu pai, da sua mulher e um de seus filhos. Ele desmoronou em choro, começou a sacudir os corpos na tentativa de acordá-los, mas sem resultado. Olhando para sua mão suja de sangue e levando-a ao rosto, começou a sentir necessidade de Alláh (Alláh, Deus no idioma árabe) e a fazer a mesma pergunta que todos nós perguntamos em momentos críticos de nossas vidas:

         -Por quê?!

Um modelo de míssil Tomahawk.
     Agachado em prantos diante os corpos, ele ouviu um gemido que vinha debaixo dos escombros de uma parede, e era de seu outro filho, o mais novo. Numa luta intensa para tirá-lo de lá, Naid acabou se machucando no braço esquerdo. Ao mesmo tempo, havia os agentes hospitalares da Cruz Vermelha que sobreviveram ao desastre ajudando os feridos. Naid e seu filho conseguiram ajuda de um desses profissionais. 

    No dia seguinte, em uma maca dentro de tendas improvisadas o filho de Naid encontrava-se em coma profundo. Se passaram mais três dias até que seu outro filho veio a falecer, devido à falta de recursos que foram destruídos na explosão.

      Naquela semana, ele parou de dar importância à vida, fechou o pequeno negócio que tinha, e se entregou ao álcool. Numa de suas alucinações, chegou até mesmo a beber um de seus frascos de perfume que era à base de álcool. Um dia, até pegou o fuzil que era de seu pai e colocando o cano na boca tentou disparar, mas não conseguiu. A guerra continuava e um amigo de Naid, Samir Abi Talib, reconhecendo a angústia dele, decidiu ajudá-lo.

    Alguns muitos refugiados nesta época abandonaram suas casas para fugir das bombas e traçantes dos projéteis, e esconder-se nas nações vizinhas. Também era este o objetivo de Samir ao ajudar Naid. Assim, ambos foram para o norte e acabaram na cidade de Alma-Ata, no Cazaquistão.

    Alugaram um quarto de hotel ali. Rapidamente, Samir conseguiu um emprego e, ao mesmo tempo, ajudava seu amigo a encontrar o caminho de volta à vida. Com o tempo, Naid foi largando o vício que o desastre com sua família o fez adquirir. A guerra no país de origem já havia amenizado, o que fez Samir pensar em voltar, só que Naid não queria pisar de novo nas terras onde sua família toda deixara de existir. Autossuficiente para se manter, ele abriu uma outra perfumaria no Cazaquistão, e assim os amigos vieram a se separar. 

       Agradecendo a Samir, Naid se despediu e disse que passaria a viver ali no Cazaquistão, e procuraria um rumo melhor para sua vida, sem ser o álcool que seu amigo o ajudou a abandonar.

         Assim renascia um novo homem, renascia porque Naid havia morrido sentimentalmente, um homem sem sentimento é o mesmo que um corpo inconsciente sem saber de seus atos. Mais um número de estatística, Naid se tornou apenas mais um, mais uma vítima da guerra.

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