O GOVERNADOR
“Nós devemos ser a mudança que
desejamos ver no mundo”.
Estas são as fiéis palavras de Mohandas
K. Gandhi, o Mahatma. Kim e Versago conheciam bem esta frase, que foi o tema da
redação da prova que prestaram para hoje estarem no cargo em que se encontram. Eles procuravam serem fidedignos a tal frase, nem que fossem por circunstâncias antiéticas contra os direitos humanos. Pensavam eles que um homem que promove a morte, o terrorismo
ou o tráfico de armas para interesses egoístas não é humano, a fim de ter
direitos.
6 de agosto...
Já era sete minutos de um novo dia, Kim
ainda não havia descansado da viagem que fizera para os Estados Unidos, e o fato
ocorrido na casa do governador tirava-lhe o sono. Ela fez uma ligação
internacional para seu parceiro do outro lado do mundo, para informar-lhe do
ocorrido:
Kim
–Alô... Christopher!
Versago
–Sou eu, Kim, o que tem de novo?!
Kim
–Assim que cheguei aqui em Nova Iorque, encontrei seu amigo Demarco, e nos
dirigimos diretamente para a casa do governador Arnold Anderson. Aconteceu que
ele estava prestes a ser executado pela Mara Votovisck se nós não tivéssemos impedido tal atentado.
Versago
–Mara! Ela está nos Estados Unidos! E o governador, está bem?
Kim –
Sim, está.
Versago
–Então este era o objetivo de Mara, matar Arnold Anderson, atual governador de
Nova Iorque.
Kim –Talvez,
mas acredito que não.
Versago
–Não?
Kim
–Depois de livrá-lo do perigo, comecei a interrogá-lo sem citar quem estava
tentando matá-lo. Falei que se tratava de uma fugitiva internacional, e sem
querer ele mencionou o nome dela, sendo que eu não dera o nome ainda!
Versago
–Compreendi o que fez, com certeza temos um possível político financiando o
mercado negro do tráfico de armas, ou algo do tipo.
Kim
–Por quê um homem envolvido com a política do outro lado do mundo, financiaria o
tráfico de armas na Ásia central?!
Versago
–Talvez pelo mesmo motivo de todos os demais casos que já nos envolveu em nossa
carreira... ganância e lucro pessoal.
Kim
-Mmm...
Versago
–Kim, continue no que está fazendo, pressione ele até a última gota, e tire toda
informação possível que conseguir.
Kim
–Vou usar todos os tipos de pressão psicológica que puder, assim que tiver
novas informações, eu te ligo para comunicá-lo.
Versago
–Positivo.
Até essas alturas a mídia americana
começava a cobrir tudo em escala nacional em plena madrugada do dia seis de
agosto, chamando a atenção da mídia internacional para o fato ocorrido na casa
do governador. Boatos faziam as emissoras intitularem o ocorrido de “Tentativa
de Atentado Terrorista na Casa do Governador de Nova Iorque”.
No departamento de polícia, Kim e Demarco
também tiveram de prestar depoimento ao delegado local, John Stevens. Foram no
total, mais de quatro horas de depoimento, três das quais só com Arnold Anderson. Kim e Demarco não tinham muito que falar, apenas estavam numa investigação
confidencial que os levara até a residência do governador.
No fim dos depoimentos, Demarco
conseguiu uma autorização para ter acesso a tudo que foi dito no depoimento
prestado por Arnold Anderson ao delegado, para então iniciarem sua bateria de
interrogatório. Kim ficou numa sala ao lado realizando
o interrogatório, e Demarco repassava as perguntas para Anderson, em inglês.
Demarco
–Arnold Anderson é seu nome completo?
Anderson
–Sim.
Demarco –Vou
direto ao ponto... Você disse no seu depoimento que não fazia a mínima ideia de
quem atacou sua residência esta noite, correto?
Anderson –Correto.
Demarco
–Só que eu e você sabemos que não é bem o caso...
Respondendo a Demarco com uma alteração
na modulação de sua voz, disse:
Anderson
–Não sei de nada!
Kim seriamente insistiu:
Demarco –Mara Votovisck Tutov, que ligações você tem com ela?
Anderson
voltava a negar fingindo não saber de nada:
Anderson –Já disse... Não sei de quem está falando!
Demarco
–Okay, okay, você está vendo este gravador em cima da mesa?... Ele, neste exato momento, está gravando nossa
conversa para fins investigativos, o detalhe é que ele é um modelo muito antigo, só é usado em casos como este. Bem, acho que eu não me apresentei, eu sou Kim
Tokarev, agente de campo da FTF, setor que estuda atividades terroristas e o
tráfico de armas da Interpol. Estou numa investigação muito importante que
envolveu seu nome, e o interessante em tudo isso, é que todos nós agentes
carregamos conosco uma escuta codificadora, que fica vinte e quatro horas
gravando nosso diálogo em nossas missões. Eu separei um trecho interessante da
noite de ontem, que gostaria muito que você ouvisse...
Kim mostrou todo o trecho dialogado com
Arnold Anderson após Mara ter escapado, provando que ele de alguma forma
conhecia a mulher que queria matá-lo na noite anterior, assim sem ter como
esconder, ele começou a falar.
Anderson
–Esta mulher... Mara, apareceu em minha vida faz uns dois anos, e começamos a
nos encontrar todos os finais de semana num relacionamento extraconjugal.
Demarco
-...
Anderson
–Ah... Quando eu a conheci, ela chegou a mim com o nome de Sofia, num plano
friamente calculado, que me pressionou mais tarde.
Demarco
–Plano? Que plano?!
Anderson –Não sei dizer bem ao certo, ela saiu comigo e gravou tudo, e ameaçando
minha carreira e meu casamento, obrigou-me a fornecer cópias de documentos do
governo, e também a gravar as reuniões de cúpula que eu tinha em Washington.
Demarco
–Você não sabe o por quê?
Anderson
–Acreditava que seria para achar podres de alguém do meu partido, só que há
pouco tempo descobri que não era isso.
Demarco
–Como?
Anderson
–Mandei alguns homens investigarem para quê Sofia queria estas informações que
estava me pressionando a fornecer, foi quando descobri que seu nome não era
Sofia e sim Mara, e ela era uma fugitiva internacionalmente procurada pela
Interpol, a KGB da Bielorrussia, e FSB da Rússia.
Demarco
–Continue...
Anderson
–Consegui colocar um detetive atrás dela e também plantar uma escuta, porém, ela
começou a suspeitar e quando descobriu o que eu estava fazendo, tentou me matar
ontem.
Demarco
–E o que você chegou a descobrir dela de tão suspeito, que fizesse ela sair do
Cazaquistão para vir aqui só te matar?
Anderson
–São alguns diálogos gravados pelo detetive que pus na sua cola, estão na minha
casa, em um cofre no meu quarto, dentro do armário atrás de um fundo falso. São
algumas fitas de áudio e documentos com os diálogos dela com seus colaboradores,
em várias línguas, o código é um, nove, quatro, cinco.
Demarco
–E quanto a Gérson Deverreaux... este nome lhe parece familiar?
Anderson
–Sim, é um francês que Mara estava usando como informante, inclusive seu nome
aparece muito nas gravações, ele na verdade é um Zé ninguém, até onde eu sei.
Demarco
–De alguma forma, este Gérson tinha acesso ao arsenal bélico francês, para um Zé
ninguém ou um capacho de Mara, você não acha que ele tinha muitos privilégios?! Você não estava financiando o tráfico internacional de armas... Estava?
Anderson
–Nã.. sim... é claro... bem admito... estava, só que estava sob pressão. – respondeu
Anderson meio gaguejando:
Demarco
–Mm...
Anderson
–Eu sou um dos acionistas da fábrica de equipamentos bélicos de St-Etiene. Nos
últimos dois anos, os três atentados terroristas atribuídos ao ETA na
verdade foram pensados por Mara, através de informações que fui obrigado a
revelar.
Demarco
–Todos aqueles fuzis roubados na verdade não foram parar nas mãos da “Euskadi
Ta Askatasuna?”.
Anderson
–Al Qaeda, Hezbollah, ou até mesmo os piratas da Somália, não sei... Só que
não foram parar nas mãos do grupo ETA como a mídia divulgou.
Demarco
–Então temos um caso antigo praticamente resolvido... Há uma frase sua que
Gérson Deverreaux falou durante a investigação no Cazaquistão, a qual revelou
seu nome. Ela diz o seguinte: “Quando seu concorrente não tem idéias
para depor, ele pinta seu oponente de preto!” – O que isto significa?
Anderson
–Nada, foi uma resposta à ameaça de Mara. Eu pretendia entregá-la às
autoridades no próximo encontro que tivéssemos, e se ela usasse qualquer
gravação para destruir minha carreira, eu usaria esta frase para me defender querendo
dizer que não me importava mais, como sempre fiz em minhas campanhas, só que
isso atiçou sua fúria e ela tentou me matar.
Depois do interrogatório Kim e Demarco providenciaram
a transferência de Arnold Anderson para a CIA. Antes, eles passariam na casa do
governador para apanhar tal evidência que ajudasse na localização de Mara.
Kim ainda não havia dormido, ela tinha
chegado aos Estados Unidos na noite anterior e passou a madrugada em branco, depois de todo o ocorrido. Alguns jornalistas faziam plantão na frente do
departamento de polícia na busca de informações, enquanto lá dentro era
discutido como seria a remoção de Anderson para a CIA, sem chamar a atenção da
mídia.
Kim decidiu com o delegado John Stevens
que ela sairia junto do agente Demarco, no mesmo modelo do veículo que levaria o
governador, sendo escoltada por dois ou três outros carros, assim então
atraindo a atenção da mídia, mas eles na verdade iriam para a casa de Anderson, recolher as evidências de que ele falara.
Após uns quarenta minutos, seria a vez
de Arnold sair escoltado em direção ao aeroporto onde um jato já estaria
esperando com destino para o da Virgínia, onde fica o departamento da CIA. Kim não deteve o cansaço e acabou
cochilando dentro do carro. Só acordou quando chegaram na mansão novamente.
Na
residência de Arnold Anderson, haviam alguns policiais e peritos guardando o local
para investigação. Para a surpresa da mídia, não saiu nenhum governador do carro ao qual eles perseguiram e focaram as lentes de suas câmeras. Só depois
descobriram que um segundo comboio saiu do departamento.
Atravessando as
faixas de isolamento e indo até o quarto onde haveria o cofre atrás dum fundo
falso, dentro do armário, Kim e Demarco acionaram o código que foi lhes dado e
estava tudo lá, as fitas, as pastas com os diálogos sânscritos e alguns Cd’s. Confiscando tudo, eles foram para o veículo que os aguardava, para então se
dirigirem para o departamento da CIA, onde o governador deveria os aguardar.
Já era quase sete horas da manhã quando
o delegado John Stevens decidiu ir embora e deixar toda a responsabilidade para o
delegado do turno da manhã. Ele havia planejado com Kim e Demarco que ele
próprio levaria Arnold Anderson ao departamento da CIA, no estado da Virgínia, e isso queria dizer que o governador também não estava no segundo comboio que saiu,
e assim eles conseguiram dispersar toda mídia que havia no local.
No seu veículo
simples, o delegado vestiu Arnold com um dos uniformes da polícia e um boné,
junto de mais um agente da CIA disfarçado de policial, que havia chegado no
local somente para escoltá-lo. Saíram normalmente, sem serem perseguidos por
qualquer repórter.
Quando deu sete e meia da manhã na
residência do governador, Demarco recebeu uma chamada no rádio, dizendo que John
Stevens havia sido morto, e que o agente da CIA disfarçado havia levado um
tiro, e Arnold Anderson havia desaparecido. Kim exclamava o tempo todo que
deveria ter ido com Arnold.
Mara voltara a agir, matando John
Stevens e sequestrando o governador em sua transferência...
Nenhum comentário:
Postar um comentário