Sinopse

Dois de Novembro traz um conto fictício de investigação, que fará o leitor realizar uma viagem pelo século XX, conforme os enigmas são desvendados. Procurei realizar um equilíbrio entre a ficção e a realidade, relacionando personagens com grandes personalidades do século passado até a atualidade. Normalmente o leitor verá fotografias ilustrativas dessas personalidades e também de símbolos das organizações que atuam ou atuaram nesse período. Qualquer evento futuro que venha a ocorrer no mundo que se iguale às fábulas desse livro não passará de mera coincidência!

Capítulo 16; Dossiê

DOSSIÊ
(Parte 1)

         9 de agosto, E. U. A.

         Nos Estados Unidos, a tensão era a mesma, Kim tinha um governador que fora resgatado das mãos dos seus raptores e começou a desenvolver distúrbios mentais pós-sequestro, chamados de síndrome de Estocolmo. Era manhã, e os resultados das pesquisas do material que Kim havia enviado para análise já estavam prontos. 

     Quando abriu o envelope, primeiro pegou o teste sanguíneo das gotículas que encontrou no chão onde Anderson estava no cativeiro. A análise dizia que o seu tipo sanguíneo era B positivo, e que, além disso, os níveis de hemoglobina, hematócrito, plaquetas, leucócitos e etc, estavam normais, de acordo com o valor de referência do homem. O teste de DNA mostrava que o sangue era mesmo de Arnold Anderson, não havia sido detectado nada além do normal. 

       Já os fragmentos de papéis que Kim recolheu foram juntados como num quebra cabeças. Os fragmentos eram a capa de alguma pasta ou arquivo, porque o desenho remontado dos papéis mostravam um número enorme em seu centro, “З-II”, seguido com o que parece ser o número dois em algarismo romano, e um símbolo dum foguete ao fundo sem nenhum dizer adicional. O que poderia ser aquilo? Somente Arnold Anderson poderia ajudar.

         9 de agosto, Cazaquistão.

         Já era noite no Cazaquistão. Durante todo o dia, Versago e todos os que estavam envolvidos na Missão Dari fizeram uma operação pente-fino na Colmeia invadida. Todos os terroristas vigilantes foram mortos durante a investida aérea e a invasão por terra. Com certeza, aquele foi um golpe e tanto para aquela organização que ali crescia. 

       O câncer havia sido eliminado, porém, Rhoemer, homem mentor de tudo aquilo, não havia sido capturado, deixando todos apreensivos porque poderiam esperar qualquer resposta à investida na Colmeia. 

        Agora, aquela organização sabia que estava sob investigação. Assim, a situação ficou alarmante porque a qualquer momento, Mara e Rhoemer poderiam dar uma resposta à altura do prejuízo provocado pela ação tomada em conjunto com as agências de inteligência. A investida militar chamou a atenção da mídia cazaque e russa. 

     A investigação que estava em segredo tinha deixado de ser secreta, exigindo a pronunciação dos chefes de partidos envolvidos indiretamente com o fato ocorrido nesta noite do dia oito de agosto. Versago, Greg, Roy e todos que participaram da missão não tiveram tempo para analisar as novas evidências achadas na Colmeia, e tiveram que se preparar para uma conferência com os chefes de estado cazaque, para que eles pudessem ir até a mídia esclarecer tudo, sem atrapalhar a investigação em Alma-Ata.

         9 de agosto, E. U. A.

         Quando a noite caiu na América, Kim e Demarco hospedados em quartos de hotéis próximos ao prédio da CIA, assistiam os noticiários da TV. Quando a reportagem falou do ocorrido no Cazaquistão, Kim já sabia que tudo tinha ocorrido bem com Versago, porque ele ligara logo após a missão, então ela já esperava o anúncio do noticiário.

         Nas últimas quarenta e oito horas, ambos, Kim e Demarco, viajaram muito entre os estados de Nova Iorque e Virgínia, na costa leste americana. Durante o dia, Kim pegou as fitas de áudio do investigador de Anderson e tentou fazer um reconhecimento de voz através de programas de computador, para saber a identidade deste homem que conseguiu grampear Mara e então localizá-lo, assim como Greg conseguiu fazer com Mara no início de tudo. 

         Descobriu-se que tal homem residia em Nova Jersey, e uma patrulha da polícia foi enviada para averiguar seu apartamento. Tal homem já estava morto pelo menos há um dia, embrulhado em saco plástico para evitar o odor. Possivelmente, mais uma vítima de Mara.

            10 de agosto, Cazaquistão.

         O dia amanheceu na capital Alma-Ata. Finalmente, Versago e os outros poderiam dar continuidade à investigação, e analisar toda a informação e materiais recolhidos durante a missão na Colmeia. Na noite anterior, os chefes de estado cazaque haviam esclarecido à mídia que o ocorrido nas redondezas de Petropavlosk foi uma resposta dada a uma tentativa de atentado terrorista, frustrada contra uma junta militar cazaque, sem atribuir a nenhum grupo especial.

       Eles passaram a informação como que se já soubessem da Colmeia e fizeram dela uma junta militar, onde ousados terroristas tentaram invadir e roubar armas e equipamentos bélicos. Assim, maquiando a realidade dos fatos, apenas os números que passaram eram reais, 59 terroristas mortos. 

     O objetivo disso discutido na conferência que fizeram estes chefes levarem tais informações à mídia, foi para não alarmar as pessoas sobre esta nova organização que surgira, assim então evitando rumores, tumultos e desordens no país.

    A operação pente-fino realizada na Colmeia logo após a missão, conseguiu localizar mais seis computadores e laptop’s, além daquele que Versago copiou metade do disco rígido num pendrive que a “A Voz” havia deixado para ele. O detalhe é que todos os outros pareciam ter sido apagados duma hora pra outra. Quando o alarme principiou a tocar, não havia nada nos seus discos rígidos, nem sequer um Windows instalado.

         Quando chegaram ao andar que Versago não chegou a ter acesso, o B3 onde ficava o laboratório da Colmeia, ele estava em chamas, com certeza provocado propositalmente pelos terroristas para queima de arquivo. Quase nada foi recuperado.

        A primeira coisa que Versago principiou a fazer foi conectar o pendrive num computador, para acessar as informações que havia extraído. Quando a janela de pastas e arquivos abriu na tela do monitor, ele viu muitas pastas e títulos escritos no idioma árabe. Sem entender nada, ligou para Mustafá auxiliá-lo:

         Mustafá –Alô...

         Versago –Mustafá, aqui é o Versago, você está em seu escritório?

         Mustafá –Estou sim, no que posso ajudá-lo?

         Versago –É que neste exato momento, eu estou acessando o pendrive que usei para copiar o disco rígido do computador de Rhoemer, porém, está tudo em árabe, eu acho.

         Mustafá –Mande-me um e-mail com todo o conteúdo, que eu traduzo pra você.

         Sem abrir nenhuma pasta, Versago copiou e anexou tudo no seu e-mail pessoal e enviou para Mustafá traduzir. Trinta minutos depois, ele retornou a ligação.

         Mustafá –Versago, há muita informação nesses arquivos.

         Versago –Como assim?

         Mustafá –O anexo que você me enviou tem um conjunto de pastas com planos e ataques múltiplos a um série de alvos, todos americanos e britânicos.

         Versago –Continue...

         Mustafá –Assim que tive acesso às pastas, li os títulos, havia pastas com documentos falsos, Noah Valentine Wilson, Sofia Morgan, identidades americanas falsas, que na verdade referem-se a Mara Votovisck Tutov e Nainenejad Abdo Rhoemer.

         Versago-...

         Mustafá –Então eu acessei a pasta de nome Ekadashi, por causa do que Rhoemer disse na Colmeia.

         Versago –Ekadashi! A data que Rhoemer realizaria seus atentados?

         Mustafá –Que ele realizaria não, que ele vai realizar. Nesta pasta havia o mapa da Ásia com a localização de pelo menos vinte e uma embaixadas americanas e britânicas em vários países, e você, pelo que me lembro, encontrou quatorze mísseis para quatorze alvos.

         Versago –Tenho que informar Dostoievski e a Interpol. Mas você descobriu que dia será? Ao que se refere “Ekadashi”?

         Mustafá –Não, vou averiguar, pois talvez essa palavra não seja do idioma Dari. Mas o que achei de interessante é que os computadores de toda a Colmeia estavam interligados a um sistema avançado de Firewall. Quando a base principiou a ser alertada, alguém deve ter acionado as defesas de informação no computador central no laboratório, que apagou todos os arquivos de todos os computadores.

         Versago –Foi isso que apagou todos os outros computadores que encontramos na Colmeia, eles estavam interligados num único terminal.

         Dostoievski –Isso foi o que você conseguiu copiar. O restante foi corrompido.

         As coisas ficavam cada vez mais difíceis para cada descoberta.

         11 de agosto, E. U. A.

       O dia dez de agosto nos Estados Unidos foi um dia sem muita atividade. O governador ainda estava sem condições de ser interrogado, Versago já havia ouvido as fitas que Kim achara na casa do governador com o áudio enviado por e-mail. 

       Assim, depois que ficou sabendo da falsa identidade de Rhoemer, ligou pra Kim e disse a ela que o Noah ouvido nas gravações conversando com Mara era um homem chamado Nainenejad Abdo Rhoemer, assim como Mara era Sofia Morgan. As buscas por Mara dentro do solo americano continuavam constantes, fotos foram distribuídas em todos os terminais de transportes públicos de Nova Iorque, e estados vizinhos.

      Só que uma coisa intrigava Kim. Mara deveria estar recebendo uma ajuda muito influente para se manter às escondidas tanto tempo, mesmo com a mídia no seu pé. Ela não havia se esquecido daquele comentário que fez com “Noah” ou Rhoemer pelo telefone, dizendo que conseguira um parceiro americano para ajudá-los nos seus planos.

         Kim, Ernest e Demarco nos Estados Unidos, e Versago, Greg, Dostoievski, Mustafá e outros no Cazaquistão, uniam suas habilidades e conhecimentos nesta investigação para capturar Mara e Rhoemer, impedindo suas atividades. Se passaram três dias desde então e chegamos a uma reunião onde todos através de uma videoconferência, colocaram na mesa tudo, o dossiê do que descobriram e os mistérios que rondavam esta investigação.

         14 de agosto, E. U. A., Cazaquistão.

         Eram por volta das nove horas da manhã nos Estados Unidos, e oito da noite no Cazaquistão quando a videoconferência foi realizada. Nela estavam Ernest, Kim e Demarco na Virgínia, e Dostoievski, Versago, Mustafá, Greg, Vassili e Anna em Alma-Ata. Havia também um novo personagem que se encontrava em Lion, na França, que estava presidindo tudo do seu escritório, na sede da Interpol.

       Ele era o presidente do departamento, e foi ele quem autorizou a vídeo conferência a fim de dar prosseguimento às investigações, e ao rumo que ela levaria. Seu nome era Josherran Cloud Louis. Com dois de seus agentes de campo envolvidos nos últimos acontecimentos, ele exigiu o direito de ficar a par de tudo. Em inglês, ele mesmo iniciou a videoconferência:

         Josherran –Bom dia senhores na América, boa noite senhores na Ásia. Temos uma série de assuntos pendentes para conversar em relação aos últimos acontecimentos desta investigação, levantada a pouco mais de um mês pelos agentes de campo: Christopher Versago, Axel e Kim Tokarev, Sei que seus envolvimentos foram uma ajuda concedida a FSB, que partilha conosco informações para desmantelamento de organizações e atividades terroristas. Eu mesmo nomeei vocês para esta investigação, através dos currículos e a experiência dos serviços prestados. Quero que me ponham a par de todo o dossiê deste processo.

         A videoconferência estava sendo realizada com a melhor tecnologia em áudio e vídeo, porém, o sinal que era enviado em tempo real chegava com um atraso de 1,4 segundos até os ouvintes.

         Versago –Senhor, quando fomos enviados para o quartel general da FSB em Moscovo, o tenente do nonagésimo terceiro batalhão da junta militar, Mikhail Usvarovisck, estava sob investigação há uns cinco meses, sob a acusação de tráfico de armas.

         Greg, ao lado de Versago, deu continuidade:

         Greg –Exatamente, descobrimos uma transação feita por ele com membros do grupo terrorista egípcio Al Gama’a Al Islamyya, dentro do território russo. Após alguns meses de investigações, fornecemos estas informações a vocês, que nos enviaram seus investigadores de campo Versago e Kim.

         Versago –Durante o processo, descobrimos que Mikhail tinha ligações com a até então desaparecida Mara Votovisck Tutov, uma das fugitivas mais procuradas da Europa e Ásia. No dia quatro de agosto em Omsk, ele também nos levou ao conhecimento de um outro homem, Gerson Deverreaux, um francês que pelo que descobrimos, costumava realizar estes tipos de transações com Mikhail.

         Josherran –O que temos sobre este Deverreaux?

         Greg era um pesquisador de um bom raciocínio lógico, e especialista em adquirir informações de pessoas através da Internet e programas de computador. Ele se formou em psicologia e estudou muito o comportamento humano, já havia pesquisado tudo sobre Gerson Deverreaux, e agora estava pondo na mesa tudo o que havia descoberto.

         Greg –Gerson Deverreaux trinta e sete anos de idade, e trabalhava numa montadora de carros, que com o aumento da crise mundial financeira, o dispensou de seus serviços. Sem nenhum vínculo familiar, ele era aquele típico homem independente, que costumava ir a boates assistir show de mulher nua. Desempregado, deve ter conhecido pessoas erradas que o levaram a lugares errados, plantando em sua mente a ideia de enriquecer rápido através do tráfico de armas.

         Versago –Gerson e seus associados foram mortos no dia quatro de agosto, quando interceptamos seus negócios com Mikhail. Antes de tudo, ele nos revelou um aparente envolvimento do governador Novaiorquino Arnold Anderson. O que nos levou a esta fase da investigação foi um telefonema que Mikhail fez a Mara, cujo qual Kim teve o trabalho de localizar sua origem.

         Josherran –E quanto aos homens que estavam com Gérson?

         Greg –Eles eram todos sérvios. Quanto aos que foram capturados com Mikhail, eram todos de origem muçulmana afegã e árabe.

         Josherran –O que sérvios faziam com um francês?

         Houve um silêncio na conferência após a pergunta. Antes que Josherran perguntasse de um possível interrogatório com os capturados, Versago disse:

         Versago –Estes homens foram interrogados e virados pelo avesso, mas não soltaram nada, nenhuma informação que pudesse nos ajudar. Eles estão detidos no quartel general da FSB, aguardando uma possível transferência para Guantánamo, em Cuba.

         Josherran entendeu que não existe pressão ou dor que fizesse com que tais homens dissessem algo. Assim, continuou:

         Josherran –Positivo, Kim prossiga, como conseguiu achar a localização do sinal do telefone de Mara?

         Kim, nos Estados Unidos principiou a falar no idioma russo sua participação neste dossiê. Josherran também sabia falar este idioma, por isso entendia tudo que era dito por ela.

         Kim –Quando interceptamos a ligação efetuada entre Mikhail e Mara, não foi possível localizá-la logo de princípio, ela deveria estar protegida com algum aparelho. Assim, foi preciso triangular o sinal, e como estávamos tratando de escala global, o processo foi demorado. Por fim, descobri sua origem. O sinal no momento da ligação estava sendo enviado de um lugar ao norte do Cazaquistão, nas proximidades de Petropavlosk.

         Conforme Josherran ouvia o que era dito em seu escritório em Lion, ele consultava em seu laptop pessoal as informações, como a localização da cidade de Petropavlosk no Cazaquistão, e a identidade de Gérson Deverreaux etc.

         Kim –Até então, era compreensível a proximidade das cidades de Omsk ao sul da Rússia, onde interceptamos Mikhail e Gérson, e a cidade de Petropavlosk ao norte do Cazaquistão, onde originou a chamada de Mara, isso mostrava que havia uma atividade naquela região. Mas de repente, Gérson nos levou ao conhecimento um suposto envolvimento de Arnold Anderson, um governador do outro lado do mundo!

         Versago –Assim, tivemos de nos separar, de princípio informei ao escritório que eu e Kim iríamos para América, porém, com a descoberta da Colmeia, preferi ficar e montar um plano de ação.

         Josherran perguntou:

         JosherranColmeia?

         O coronel Roy Dostoievski que estava ao lado de Versago, na sala em Alma-Ata, adiou o assunto referente à Colmeia.

         Dostoievski –Senhor Josherran, este é um outro assunto que iremos abordar em breve.

         Josherran –Positivo, continue.

         Kim deu prosseguimento.

         Kim –Então senhor, eu vim até a América com o objetivo de interrogar Anderson. Aqui, conheci o agente da CIA indicado por Versago para me auxiliar, Demarco O’Briam. Neste mesmo, dia fomos até a residência do governador, onde impedimos que ele fosse assassinado por Mara, que também estava no local.

         Josherran –Então, em menos de três dias Mara saiu do Cazaquistão, onde você detectou a localização de uma de suas chamadas telefônicas, e viajou até os Estados Unidos, só para matar o governador Arnold Anderson?!

         Kim –Esta é a questão! Quando encontramo-la na residência dele, estava empunhando uma pistola contra sua cabeça, numa discussão bem audível. Parecia que ela queria puxar o gatilho para matá-lo, mas com a nossa interceptação, não conseguiu fazer isso. Porém, no dia seguinte, ela conseguiu capturá-lo num atentado, mas não o matou. Quando descobrimos seu paradeiro e o resgatamos, ele estava fraco e com um distúrbio mental pós-sequestro, chamado de síndrome de Estocolmo.

         Josherran –O que vocês descobriram quando interceptou ela pela primeira vez, na casa do governador?

         Kim –O governador Anderson foi vítima de um golpe planejado por ela. Quando se deu conta, ele mesmo pôs um investigador atrás dela, que acabou descobrindo sua verdadeira identidade. Porém, ele foi encontrado morto em seu apartamento, em Nova Jersey.

         Josherran –Presumo que tenha sido vítima de Mara, também...

         Demarco tomou a fala dessa vez.

         Demarco –É o que acreditamos, pois presumimos que Mara, para manter sua identidade secreta, deva ter invadido a mansão de Anderson e torturado ele para extrair tal informação. Com nossa interceptação, frustramos seus planos. Mas ela deve estar ferida, pois Kim a atingiu na mão direita.

         Josherran –E quanto ao atentado que matou Stevens?

         Demarco –Mara com certeza está recebendo ajuda de alguém próximo a nós, pois ela não tinha como saber do transporte que levaria o Governador Arnold Anderson para o Aeroporto, nesse dia. E mesmo assim, ela conseguiu sequestrá-lo novamente, matando o delegado John Stevens.

         Kim –Provavelmente foi nessa segunda estadia com Mara que o governador Arnold Anderson não deva ter resistido à tortura, revelando quem era o investigador que ele pôs atrás dela, o que resultou em sua morte.

         Josherran –E o que foi descoberto?

Respondendo a pergunta, foi a vez de Ernest, nos Estados Unidos, falar:

Ernest –Descobrimos que ela costuma entrar nos Estados Unidos com uma identidade falsa, de nome Sofia Morgan. A primeira transação feita por Mikhail com os egípcios da Al Gama’a Al Islamyya foi instigada por ela, e descobrimos também que ela parece ser subordinada de um homem cujo nome seria “Noah”, na verdade nome falso de Nainenejad Abdo Rhoemer Este mesmo parece ter vindo para cá numa viagem, pelo que dá para entender. E sabemos também que estão tendo a ajuda de um americano para realizar seus planos, tudo isto está gravado em fitas de áudio, que já enviamos em cópia para Lion, no escritório geral da Interpol.

         Josherran –Positivo, recebemos a fita. Quanto a Arnold Anderson, qual é seu atual estado de saúde?

         Ernest –Segundo os médicos, parece que ele estará preparado emocional e psicologicamente para falar amanhã.

         Josherran –Okay, preciso deste depoimento assim que ele for feito amanhã. Kim, se encarregue disto! Greg, o que temos sobre este homem, Nainenejad Abdo Rhoemer?

         Greg –Assim que descobrimos seu nome, pesquisei nas mais variadas fontes de registros cazaque, russo, árabe, etc. Não descobri nada, pesquisei posteriormente na lista dos terroristas e criminosos mais procurados das mais diversas agências do mundo, e nada! O homem é um fantasma!

         Josherran –Será que este nome é o seu verdadeiro?

         Greg –Talvez, pois sabemos que o índice de crianças que nascem sem um registro nos países emergentes asiáticos ainda é grande, comparado com sua idade, ele deve ter nascido numa época que registrar era bem remoto, dependente de sua nacionalidade.

         Josherran –Entendo!

         Greg –Se Nainenejad Abdo Rhoemer não tem um registro, será impossível de saber sua ficha, ele, pelo que me parece, também não tem a mínima vontade de fazer para si um nome célebre, construindo uma fama, como Bin Laden.

         Ernest então fez um comentário que soou um tanto preconceituoso:

         Ernest –Muçulmanos burros! Por isso que não gosto do terceiro mundo, eles não dão a mínima para controles de natalidade!

         Roy Dostoievski não gostou do comentário de Ernest, e lembrando de Mustafá, disse:

         Dostoievski –Hei, escuta aqui! Ninguém escolhe a região e a classe social que quer nascer, se dê ao respeito, porque temos árabes na conferência!

Josherran apaziguou a situação, dizendo:

         Josherran –Senhores, senhores, não vamos tornar a videoconferência numa discussão de raças. Ernest, por favor, controle seus comentários e Roy, não se deixe levar pela fúria. Versago, pode dar prosseguimento.

         Versago voltou a falar:

         Versago –Assim que voltamos para o Cazaquistão, eu mergulhei na missão de estudar os movimentos e atividades terroristas naquela base de nome Colmeia, e no dia nove, eu a invadi disfarçado como um de seus vigilantes. Descobri muita coisa, estive bem próximo de Nainenejad, e obtive acesso a documentos que revelaram a verdadeira identidade do local.

         Josherran –A Colmeia, de que tinham falado?
        
         Respondendo Dostoievski disse:

         Dostoievski –Positivo, a Colmeia... Ela é na verdade um projeto inacabado de políticos conservadores, que planejaram o golpe de estado contra o ex-presidente soviético Mikhail Gorbatchov em 1991. Seu objetivo era armazenar mísseis de portes médios e pequenos em segredo, muitos dos mísseis testados na base espacial de Baikonur, foram parar lá, sem o consentimento de Gorbatchov.

         Josherran –E como os terroristas tiveram o conhecimento desta base e a tomaram?

         Dostoievski –Na verdade, esta base não existia para o governo Cazaque até sua descoberta. Ela deve ter ficado abandonada por anos.

         Josherran achou estranho a argumentação do coronel Dostoievski. Se o estado cazaque não sabia da existência desta base militar nas redondezas de Petropavlosk, como então ele sabia tão bem de sua história? Pensou, e assim começou a interrogá-lo:
        
         Josherran –Roy, me diz, se o estado cazaque não fazia a mínima ideia da existência desta base, como você está tão bem familiarizado com ela?! Sabe até seu nome de batismo, Colmeia!

         Neste momento, Versago também parou para raciocinar em tudo o que Dostoievski havia lhe dito, quando estava na Colmeia. Ele realmente estava muito bem familiarizado com os fatos da história, inclusive com a forte ligação com o cosmódromo de Baikonur, em Semipalatinsk. Só que Roy foi bem direto em sua resposta:

         Dostoievski –Os conservadores que idealizaram a Colmeia e tentaram derrubar o presidente Gorbatchov na época... eu era um deles!

         Todos ficaram calados por alguns segundos depois desta afirmação de Dostoievski. Ele mesmo quebrou o silêncio:

         Dostoievski –Senhores, mas isto não vem ao caso agora, estamos tratando de uma ameaça muito grande nesta conferência e naquela época nós tínhamos nossas razões para tentar derrubar Gorbatchov!

         Vassili, que estava ao lado de Dostoievski o apoiou, levando Josherran, e os demais a concordarem:

         Vassili –Concordo com Roy. Senhores, estamos discutindo a respeito do futuro desta investigação, e não sobre o passado de um homem que já fez muito pela sua nação!

         Josherran –Positivo. Versago, continue. Me diga o que aconteceu enquanto você esteve na Colmeia.

         Versago –Além de descobrir a verdadeira origem do local, descobrimos que eles possuíam um potencial considerável em equipamentos bélicos, quatorze mísseis Zevzda KH-35. Segundo uma conversa que ouvi entre Rhoemer e seus colaboradores, eles tem um silo de lançamento para estes mísseis, já que na Colmeia, não há nenhuma estrutura para isso.

         Mustafá passou então a fazer parte:

         Mustafá –A pouco, descobri que na verdade, cada um destes mísseis já tinham seus alvos definidos. 

         Josherran –Prossiga!

         Mustafá –Versago coletou uma informação muito importante no computador de Rhoemer, e ele me passou estes dados via e-mail.

         Josherran –E quais foram as informações que você conseguiu visualizar?

         Mustafá –Bem, assim que abri o e-mail, passei a navegar e acessar as diversas pastas que ali haviam. São vinte e um alvos em toda a Ásia central, vinte e uma embaixadas americanas e britânicas, e sedes de órgãos como OTAN e ONU.

         Josherran –Então dos quatorze mísseis recuperados na Colmeia, pode haver por aí outros sete armados, e apontados para estes alvos?

         Versago –Pelo que ouvi da boca de Rhoemer, creio que sim, eles tem um silo de lançamento em algum lugar.

         Ernest, nos Estados Unidos, perguntou:

         Ernest –Estes mísseis tem o alcance de atingir o solo americano lançados da Ásia?

         Versago –Negativo, se eles forem lançados da Ásia central, só atingirão o solo asiático, possivelmente o solo europeu, porém, os alvos pelo que parece, já foram definidos por eles.

         Vassili fez o seguinte comentário:

         Vassili –Senhores, eliminamos as chances de eles atingirem quatorze alvos, pois o simples fato deles possuírem um silo ou não, não diz se sete destes alvos seriam atacados pelos mísseis que recuperamos. Talvez eles tenham outros planos para estes alvos.

         Apoiando Vassili, Demarco, dos Estados Unidos, fez uma pronunciação nesta conferência.

         Demarco –Realmente, não podemos tirar conclusões precipitadas. Esta organização deveria ter outro método de atingir estes sete alvos restantes. Temos de pensar em todas as oportunidades possíveis.

         Josherran –Concordo com você, Demarco, mas isso também não elimina o fato deles terem um silo com possíveis mísseis apontando neste exato momento para sete destes vinte e um alvos, então devemos deixar isto em pauta, para ser investigado.

         Mustafá citou sobre Ekadashi:

         Mustafá –E enquanto ao dia do atentado, Ekadashi?

         Josherran –Ekadashi?

         Versago –Positivo, quando eu ouvi a conversa de Rhoemer na Colmeia, uma das coisas que ele falou é que tudo acontecerá no Ekadashi de agosto. No princípio, não tínhamos certeza da pronúncia desta palavra, porém, quando Mustafá teve acesso às pastas, descobrimos a forma exata de escrever.

         Josherran –E quando será?

         Mustafá continuou:

         Mustafá –Não sabemos, se esta palavra é uma data específica, ela não está em nenhum calendário.

         Anna Kiev que até então, estava calada na conferência, passou a dizer:

         Anna –Com licença, senhores. Não sei se vocês acreditam em Deus, mas creio que essa palavra: “Ekadashi” deva ter algum sentido religioso, pelo modo que ela fora pronunciada da boca de Rhoemer. E também, ela não me é estranha!

         Mustafá –Concordo plenamente com Anna. Aliás, a maioria na Colmeia eram Islões.

         Ernest, ainda um pouco alterado pelo seu preconceito, disse num tom bem forte:

         Ernest –Mas que data é essa, que feriado?! Mustafá você não é árabe? Diga-nos...

         Kim acalmou Ernest.

         Kim –Calma, senhor Ernest, aqui somos todos aliados. Não deixemos nossos preconceitos nos dividir nessa questão.

         Mas mesmo assim, Mustafá respondeu a indagação de Ernest.

         Mustafá –Sim, eu me curvo a Deus cinco vezes por dia rezando a alfátiha. Mas não sou perito nas leis muçulmanas do alcorão. Se desejar, posso procurar um clérigo para nos auxiliar. Pois admito que nunca vi tal palavra em toda a minha instrução muçulmana.

Então Greg pediu para Mustafá falar sobre tudo que estava monitorando quando acompanhava Versago, em sua missão na Colmeia.

         Greg –Mustafá, por favor, diga-me tudo o que você lembra sobre as conversas dos muçulmanos na Colmeia.

         Mustafá –Além de Ekadashi, haviam os códigos de acesso como o que driblava o Firewall do computador de Rhoemer, “Pandora”. E também eles citaram sobre um ataque na América.

         Greg –Mmm...

         Vassili perguntou:

         Vassili –O que acha, Greg?

         Greg –Creio que estamos lidando com um homem que gosta do passado, ele deve conhecer histórias e mitologias antigas, e gosta de associar seus atos com títulos e nomes de grandes significados. Tanto seu nome falso como as senhas de que me falou, tem outras origens que podem ser interpretadas de outro modo.

Todos prestaram estritamente atenção ao que Greg falava:

         Greg –Noah, do Latim significa nona, subentendendo-se hora, hora nona. Hora nona do ofício divino, Valentine é uma das diversas variações de Valentim que pode significar luta, destemor, ousadia, ou São Valentim, mártir romano do terceiro século. Quanto a Wilson, pode ser diversas pessoas da história com este nome, por exemplo, algum presidente americano. Outros aspecto é ele ter usado o nome Pandora...

         Interrompendo Greg, Demarco perguntou sobre este título:

         Demarco –Arca de Pandora não seria aquela caixa que segundo a mitologia grega, fez com que os humanos herdassem o cansaço, o sono e a morte?

         Greg –Positivo, parecido com a gênese da bíblia entre Adão, Eva e o fruto proibido, mas da mitologia helênica.

         Ernest ficou muito curioso sobre isto, então, ele perguntou a Greg:

         Ernest –E o que pode significar isso?

         Greg –Segundo a mitologia helênica, Pandora foi à primeira mulher da humanidade. Assim como Eva, na bíblia, ela foi responsável pela vinda do mal sobre a terra, por ter aberto o vaso onde Zeus havia encerrado todas as misérias e males, daí o nome arca de Pandora. No fundo desta mesma caixa, como consolo, restou para a humanidade apenas a esperança. Se associarmos esta história com algo parecido hoje, pode-se concluir que Rhoemer nomeou um de seus planos de acordo com o atentado que irá desferir...

Demarco, mais uma vez interrompendo Greg, afirmou:

         Demarco –Ataque viral, químico, doença...

         Greg –É uma hipótese.

Josherran, num tom bem forte, voltou a falar:

         Josherran –Então podemos estar lidando com o bioterrorismo!

         Greg tornou a repetir:

         Greg –É uma hipótese.

         Da tecnologia dos computadores a mitologia que conta a história de Zeus e a arca de Pandora, enigmas rondavam aquela investigação, e ao contrário da caixa, a esperança não pode ser encontrada no seu fundo, e sim, na mente e experiência daqueles homens.

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