RAÍZES DO MAL
5 de agosto...
Com os corpos de Mikhail e de Stephani já no necrotério, sem nenhum sucesso Greg tentou extrair mais informações dos árabes que havia capturado na emboscada. Ele puxou ficha de Gerson Deverreaux e os últimos lugares que passara antes dele ir até a Omsk, se encontrar com Mikhail.
Greg –Versago, eu puxei todo os antecedentes de Deverreaux e não achei muita coisa, acredito que ele era apenas um capacho nisto tudo.
Versago –Por quê?
Greg –Bem, a princípio acreditei firmemente que ele deveria ter ligações com a organização terrorista “Euskadi Ta Askatasuna” da região Basca entre a França e a Espanha. Levando em consideração os atentados atribuídos a este grupo no último ano, onde fuzis FAMAS foram roubados de caminhões pertencentes à fábrica de armas de Santa Ettiene. Porém, vi que esse Gérson Deverreaux era um funcionário da mesma manufatura bélica, e foi despedido por justa causa, por comportamentos impróprios, durante a crise mundial financeira que assolou o mundo em 2007. E foi contratado novamente como gerente de transportes em 2009, sem nenhuma experiência como tal.
Versago –Com certeza isso soa muito estranho. Ele foi despedido como um pião e por justa causa, e dois anos depois é recontratado como gerente de transportes sem experiência?!
Greg –Segundo o setor de recursos humanos da fábrica de Santa Ettiene, é molde da empresa. Mas é aí que entra uma observação. No período em que esteve desempregado, ele realizou diversas viagens internacionais, Bordeaux, Paris, Berlim, Londres, Nova Iorque, Moscovo, Nova Iorque de novo, daí voltou para Paris, depois Santa Ettiene, Moscovo mais uma vez e por fim Omsk.
Versago –Descubra o que ele foi fazer nestes lugares, com quem foi se encontrar, onde se hospedou, e quantos dias ficou.
Greg –Eu já fiz isso, é impossível rastrear seus passos dentro de cada uma dessas cidades, pelo que me parece, ele não usou nenhuma vez seu cartão de crédito e não se hospedou em nenhum lugar, pelo menos não com o seu nome e identidade.
Versago –Família, filhos, parentes, alguém?!
Greg –Negativo, sem filhos, sem esposa. Seus pais faleceram quando era criança, até onde eu sei. Enquanto ainda era um pião na fábrica de armas de Santa Ettiene, ele era um típico homem boêmio, que gastava todo seu salário em boates para ver show de mulher nua, tinha péssimos hábitos, e sem nenhuma peculiaridade particular.
Visto que as pistas levavam a dois caminhos diferentes, o governador Nova Iorquino nos Estados Unidos, e uma suposta junta militar nas proximidades de Petropavlosk, ao norte do Cazaquistão, Versago e Kim decidiram se separar. Kim partiria para os Estados Unidos averiguar as evidências, e Versago preferiu ficar e montar um plano de ação.
Kim conhecia, porém não falava fluentemente o idioma americano. Versago disse pra ela não se preocupar quanto a isso, pois um amigo da qual partilharam missões juntos estaria esperando por ela nos Estados Unidos. Ele falava russo fluentemente além do inglês, seu idioma natal. Este era o agente especial da CIA* Demarco O’Briam, e estava autorizado à colaborar nas investigações desses agentes da Interpol.
A viagem era longa para Kim, e Versago no quartel general da FSB, em Moscovo, queria saber do governo do Cazaquistão em relação da suposta junta militar, nas proximidades de Petropavlosk. O governo cazaque, sabendo que se tratava de uma investigação internacional dentro do seu país, não sabia de nenhuma atuação legal do seu exército naquela região.
Sendo membro da ONU e outros órgãos associados, abriu todas as portas para a Interpol atuar dentro da nação em suas operações e eliminar o câncer que ali possivelmente crescia, porém, com a inteligência cazaque acompanhando de perto.
As fotos via satélite mostravam guardas armados com fuzis Kalashnikov e FAMAS, talvez resultado de transações entre Mikhail Usvarovisck e Gerson Deverreaux, e isto explicava o por quê da troca de armas. Aquela região era extremamente úmida e fria, e o clima estava enferrujando e apodrecendo a madeira dos Kalashnikov que estavam sendo trocados por FAMAS, um fuzil mais resistente ao frio e às geadas, que eram constantes.
Com o sinal verde dado pelo governo Cazaque, o próximo objetivo era estudar nos próximos dias a movimentação do lugar, isto é, a entrada e saída de caminhões, monitorando suas rotas, investigando que tipo de operação eles faziam ali e qual o nível de ameaça que representavam. Versago apenas tinha de observar, antes de tomar uma ação.
Eram por volta das oito e meia da noite do dia cinco de agosto, quando Kim chegou no aeroporto internacional de Nova Iorque. O agente secreto Demarco O’Briam já a esperava. Quando encontrou-se com Kim, passou a se apresentar e dizer:
Demarco –Kim Tokarev... Eu sou o agente secreto Demarco O’Briam da CIA, designado para colaborar nas suas investigações.
Kim –Você é o amigo do Christopher?
Demarco –Correto. Ele me telefonou dizendo que viria, e que você não sabe falar inglês fluentemente, então eu vou ser seu porta-voz e intérprete, sempre que precisar.
Kim –Positivo.
Demarco –Você já tem um quarto de hotel para descansar da viagem lhe esperando.
Kim –Negativo... Eu estava pesquisando no meu “laptop” a agenda do governador Arnold Anderson, e sei que ele está em sua residência neste exato momento. É para lá que vamos agora.
Kim realmente não queria perder tempo, mal havia posto seus pés nos Estados Unidos, já queria resolver logo a questão Arnold Anderson. Durante o trajeto, os dois agentes principiaram a jogar conversa fora dentro do carro.
Demarco –E aquele Versago, como é que ele está? Já faz um bom tempo...
Kim –Não sei como ele era antes, mas gosta de resolver as coisas o mais rápido possível, e de se arriscar para alcançar seus objetivos e trazer glória pra si.
Demarco –É meu velho amigo Axel... Não mudou nada, continua persistente naquilo que lhe convém.
Kim – Pelo menos ele é bom naquilo que faz.
Demarco –Servimos juntos no Iraque, e tínhamos uma frase: “Para que o mal não floresça, envenene sua raíz”. É um jeito diferente de se dizer: “cortar o mal pela raiz”.
Kim –Como assim?
Demarco –Por mais que você corte as raízes das ervas daninhas, sempre sobra uma ou outra que faz elas crescerem novamente, o que não acontece se você as envenenar.
Kim –Entendi... Espionagem.
Demarco –Exatamente! Por isso que depois do Golfo, nos tornamos agentes secretos da CIA e Interpol. Eu sou o "veneno", e estou disposto a acabar com todo tipo de flagelo que corrompe nosso mundo.
Kim –É uma frase interessante. Todos os espiões se encaixam dentro dela, Versago nunca havia mencionado ela pra mim.
Demarco –Ele não gosta muito de compartilhar fatos e experiências... Ele já contou pra você que recebeu a estrela de bronze na Guerra do Golfo?
Kim –Não.
Demarco –Nós estávamos no meio de um fogo cruzado contra a resistência republicana, quando um de nossos colegas foi baleado duas vezes na perna direita e uma vez na barriga, e caiu bem no meio da linha de tiros. Ele estava chorando e gritando de dor, foi quando levou outro tiro no braço. Os malditos republicanos não queriam matá-lo, queriam nos fazer ver seu martírio. Nosso colega baleado, começou a gritar: -'Morfina! Morfina!' Foi quando Versago pediu o máximo de morfina possível, e saiu correndo no meio do fogo cruzado, com os traçantes dos projéteis passando próximos ao seu corpo, só para levar a morfina até nosso colega e amenizar sua dor. Jogou ele dentro dum buraco feito pelas bombas que caíam e aplicou a morfina. Quando os helicópteros chegaram para nos dar cobertura, fomos até lá e o nosso colega havia falecido sem dor por causa do Versago, e o próprio Versago tinha sido alvejado na coxa, até então sem perceber. Nosso capitão achou que foi um ato de grande coragem e o nomeou para concorrer à estrela de prata que ficou comigo.
Kim – “Poxa” que história! E você, como ganhou a estrela de prata?
Demarco –Não foi uma historia tão espetacular, só que salvei um coronel dum helicóptero em chamas, e acredito que foi por isso que recebi a estrela de prata.
Nisto, Kim e Demarco viravam a esquina da rua que levava até a enorme residência de Arnold Anderson, governador de Nova Iorque, só que algo estava acontecendo de muito estranho na casa. Os portões estavam escancarados sem nenhum segurança. Os dois agentes decidiram entrar sem comunicar, pensando estar acontecendo algo de errado.
Cada um empunhou suas armas e cautelosamente foram entrando. Havia um chafariz no meio do jardim, e um dos seguranças caído ao lado, com duas marcas de bala no peito já sem pulso. Confirmado o atentado, Kim pedira a Demarco para chamar a policia local. Havia uma limusine estacionada em frente à escadaria que levava até o hall de entrada da casa, só que não havia ninguém dentro. Aos passos lentos, os dois entraram, e em sinais, Kim disse à Demarco:
Kim –Fique de olho aberto, eu vou subir e averiguar o andar superior, veja o térreo.
Subindo as escadas, Kim percebeu algumas gotículas de sangue que formavam rastros que passavam por um corredor até uma sala de porta dupla. Uma das portas não estava totalmente fechada, e uma conversa no idioma inglês, ela passou a ouvir. Embora não entendesse, ela conseguia reparar que havia uma certa alteração no tom da conversa de quem estava lá dentro. Então pelo vão da porta que estava semi-aberta, Kim viu a cena que ocorrera.
Era Mara, com uma pistola equipada com supressor, apontando para a cabeça do governador, que estava ajoelhado na sua frente e dois homens, possíveis comparsas de Mara, ao lado dela. Vendo que a vida do governador estava em perigo, Kim agiu por impulso de capturar a maior traficante da Ásia e salvar Arnold Anderson. Abrindo a porta e disparando várias vezes, ela acertou um tiro na mão de Mara, que segurava a pistola, e outros tiros acertaram um dos comparsas, que caiu instantaneamente.
Mara saiu correndo por uma outra porta que havia na sala. O outro homem se jogou atrás de um sofá, dando cobertura para a fuga de Mara, disparando sua arma com silenciador contra Kim. Depois de um minuto trocando tiros com este homem, Demarco entrou pela porta que Mara fugira, pegando o comparsa dela pelas costas e alvejando-o com quatro disparos.
Kim principiou a falar desesperadamente a Demarco:
Kim –Você viu ela, conseguiu pegar ela?!
Demarco –Ela quem?! De quem você esta falando? Eu matei este homem aqui!
Kim –Não é possível, era a Mara! Ela saiu pela porta que você entrou em questão de instantes, eu a atingi na mão, deve estar sangrando...
Demarco –Não, não eu não vi ninguém lá, apenas ouvi seus tiros e vim correndo por outra escada que encontrei.
Por incrível que pareça, Mara estava cercada e conseguiu despistar Demarco, que vinha a seu encontro e fugir. O governador estava a salvo, e antes que a polícia local chegasse, Kim usou o momento de desespero de Arnold Anderson de quase ter morrido para extrair algumas informações, antes que ele soubesse que ela era uma agente da Interpol que veio investigá-lo, e usou Demarco como intérprete.
Demarco –Quem eram aquelas pessoas? Por quê queriam matá-lo?
Anderson –Não sei, acho que eram ladrões. Droga! Eles mataram todos os meus seguranças!
Demarco –Não pode ser. Você, ser assaltado pela mulher mais procurada da Europa e Ásia, com um patrimônio estimado a setecentos milhões de dólares?!
Anderson –Não sei do que está falando, só sei que aquela maldita abriu meu supercílio. Hey, você não fala inglês?
Kim, se arriscando em responder, disse:
Kim –Não.
E se dirigindo a Demarco, ela continuava a instruí-lo no interrogatório.
Demarco –Isto me soa atentado terrorista contra o governador de Nova Iorque. Seja lá o que foi que ela veio fazer aqui, não era roubá-lo.
Anderson -...
Demarco –Vamos, levante! A polícia já está chegando...
O governador Arnold Anderson estava tentando controlar suas emoções, só que ao se levantar, acabou dando uma brecha nas suas afirmações. Kim captou na hora. Ele disse:
Anderson –As pesquisas mostram que eu vou ser reeleito nas próxima eleições, talvez seja uma estratégia política de um dos meus adversários contratar Mara para me dar um susto, e me fazer desistir de concorrer.
Kim –Mara!
Anderson –É... É... Esta fugitiva internacional de que me falou que era.
Novamente arriscando a falar em inglês Kim disse:
Kim –Mas eu não disse o nome dela!
Logo, a polícia local chegou e escoltou Arnold Anderson até a delegacia mais próxima, onde prestou depoimento.
Kim percebeu que quanto mais cavava, mais raízes encontrava, aquele a quem salvou a vida, deixou escapar que conhecia Mara de alguma forma, e era algo muito grande para chegar a envolver até um governador do outro lado mundo numa investigação de tráfico de armas, que começou com um tenente russo na Ásia.
As raízes do mal começavam a dispersar-se abaixo à terra...

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