Sinopse

Dois de Novembro traz um conto fictício de investigação, que fará o leitor realizar uma viagem pelo século XX, conforme os enigmas são desvendados. Procurei realizar um equilíbrio entre a ficção e a realidade, relacionando personagens com grandes personalidades do século passado até a atualidade. Normalmente o leitor verá fotografias ilustrativas dessas personalidades e também de símbolos das organizações que atuam ou atuaram nesse período. Qualquer evento futuro que venha a ocorrer no mundo que se iguale às fábulas desse livro não passará de mera coincidência!

Capítulo 3; Necessidade de Culpar



NECESSIDADE DE CULPAR

“Em nome de Deus [Alláh], Clemente, Misericordioso.
 Louvado seja Deus, Senhor do Universo, Clemente, Misericordioso.
 Soberano do dia do Juízo.
 Só a Ti adoramos e só a Ti imploramos ajuda!
 Guia-nos à senda reta, à senda dos que agraciaste, não à dos        abominados nem a dos extraviados” - Alcorão, surata 1:1-7

         Esta era a alfátiha que Naid costumava rezar pelo menos cinco vezes ao dia, e que agora não se importava muito em fazê-la. Ele era um homem inteligente, só que também era um ser humano, com sentimentos. Se irou com a vida e com Alláh, fraquejou perante o álcool e conseguiu se recuperar, um verdadeiro milagre para quem quase se matou com um tiro de rifle na boca. 

         Tirar a própria vida seria pra ele um alívio, não tinha nada a perder, tudo o que ele tinha se foi num único dia, tudo o que sofreu acabou com a sua vida, ele passou o que passou porque não havia quem culpar, não chegou ter esta necessidade. Assim, ele se condenou pela fatalidade como se fosse culpado, pensando que Alláh o havia condenado por algo de errado que ele teria feito.

         Meses se passaram, e a nova perfumaria que Naid abriu em Alma-Ata, no Cazaquistão, estava indo muito bem. Ela ficava num galpão alugado, onde ele trabalhava e morava.
       Certa vez, voltando de um comércio onde costumava fazer compras, numa esquina ele tropeçou em uma mendiga, que em russo reclamou:

         -Não olha por onde anda?!

         Sem entender nada do que ela dizia, Naid sacou do bolso uns trocados, pegou um pedaço de pão das sacolas que carregava e deu a esta mendiga, e disse no idioma dari, seu idioma natalício:

         -Perdão, eu sei que você, imigrante, não está entendendo nada do que estou dizendo, mas mesmo assim vou lhe falar: Era para eu estar aí no seu lugar, eu sei que a bebida é o único jeito de sair do mundo em que vivemos e esquecer dos problemas que passamos, então tome, pegue e vá, fuja dos seus problemas.

         Assim Naid deu-lhe as costas e saiu em direção à sua perfumaria. O que ele não sabia é que aquela mulher não era uma mendiga e ela também compreendia o idioma dari, então ela entendeu tudo que ele lhe disse. Esta estranha mulher decidiu segui-lo até o seu destino. Naid, por sua vez, chegou à perfumaria para mais um dia de trabalho. Assim que abriu as portas, chegou seu primeiro cliente. Era a mulher que havia tropeçado. Ela começou a falar em dari:

         -Desculpe-me por entrar assim, pois vim agradecer...

         Interrompendo ela, Naid perguntou:

         -Você fala minha língua?

         E ela respondeu:

         -Acho que sim, se estou dialogando com você.

         Ele entendeu em tom de piada a resposta da mulher estranha. Então os dois principiaram a conversar. Sorridente, Naid disse:

         -Bem, você já me fez sorrir hoje, mas não tenho nada mais pra lhe oferecer.

         A mulher deu alguns passos e falou:

         -Não é nada disso que está pensando, eu realmente agradeço a ajuda que me deu, pois vim trazer-lhe o dinheiro de volta.

         Ela colocou o dinheiro em cima do balcão e continuou dizendo:

         -Meu nome é Mara... Mara Votovisck Tutov, e eu nunca fui uma mendiga, como o senhor deve estar pensando, vim da Rússia, e realmente estou passando por alguns problemas e estou disposta a lhe pagar se o senhor deixar eu me instalar aqui por um período.

         Então no balcão onde Mara havia colocado o dinheiro que tinha devolvido a Naid, colocou outra quantia em dinheiro pelo menos vinte vezes maior que a esmola que ele lhe dera. Foi então que Naid perguntou:

         -Do que você foge que simplesmente não pode pagar um quarto de hotel?

         Arrogantemente respondendo, Mara disse:

         -Vamos fazer um trato, você pega o dinheiro, deixa eu me instalar aqui e não me pergunta nada! Tudo bem?

         Pensando consigo mesmo Naid calculou que possivelmente ela deveria ser uma fugitiva das autoridades, mas sentiu simpatia por ela, e assim aceitou-a na sua humilde moradia, porém, não aceitou o dinheiro oferecido, falando que não era preciso ser pago para fazer uma caridade.
        
Mara Votovisck Tutov, era uma charmosa mulher de cabelos curtos e loiros radiantes, também era alta, por volta de um metro e oitenta. Tinha uma face que aparentava ser de uma mulher frágil e muito inteligente, como aquelas garotas estranhas de primeira fileira da escola. Ela apareceu na vida de Naid, sendo guardiã duma mochila, tudo muito misterioso para este homem que acabara de recomeçar uma nova vida.

         Os dois não conversavam muito, a não ser somente o necessário. Em certa ocasião, Mara tentou se aproximar dele, perguntando:

         -Por quê você teria se tornado um mendigo como me disse quando tropeçou em mim?

         Respondendo arrogantemente, Naid disse:

         -Eu estou impedido de perguntar a você do que está fugindo para estar escondida aqui, então eu não lhe devo tal resposta, talvez Mara nem seja seu nome! Então, por favor, não me pergunte isso outra vez.

         Pasma com tal resposta, Mara apenas pediu desculpas e não expressou uma única palavra neste dia.
         Quase um mês com Naid, Mara já havia flagrado ele diversas vezes em prantos pelos cantos da casa, e toda as vezes, ela fingia não perceber nada. Um dia, cansada de ver tal cena dele se torturar por algo, ela avançou em cima dele, deu-lhe um tapa e começou a dizer:

         -Olha pra mim... Escuta-me... Não sei o que foi que você fez ou deixou de fazer, apenas sei que é passado e nada vale ficar aí, se martirizando... Você tem de esquecer e deixar de se torturar, está entendendo? Se não há nada que possa fazer... Saiba que eu também fiz muita coisa errada na vida... Algumas esqueci... Outras, meus princípios me imploram por ação da minha parte para resolver... E é assim que eu vivo.

         Naid precisava dum ombro para desabafar tudo aquilo que estava entalado na garganta, tudo que passara até ali, e o desastre com sua família. Era uma necessidade importante, e fragilizado pelo momento, não aguentou conter mais aquilo e começou a falar dele e de sua fuga do Afeganistão e a dramática história de sua família. Quando terminou, uma lágrima caiu dos olhos de Mara, e expressando-se em um tom de ódio, ela passou a dizer:

         -É assim que acontece... Eles argumentam sempre  que estão a lutar contra o mal e matam, porém, as vítimas colaterais que fazem, acabam se tornando sempre estatísticas, e eles não fazem nada por estes pobres, por isso que eu os odeio, sempre se intrometeram na guerra dos outros, tudo por interesse financeiro.

         Confuso Naid disse:

         -Não estou entendo, do que está falando?!

         Olhando fixamente para Naid, Mara passou a acusar o que ela considerava como seus maiores inimigos:

         -Falo dos deuses da guerra... Os assassinos da sua família e das pessoas que eu mais amava... Da coisa repugnante que só traz desolação para o mundo... O governo dos Estados Unidos, Inglaterra e seus compostos OTAN., e ONU.

        
O.N.U.
Organização das Nações Unidas.
O.T.A.N.
Organização do Tratado do Atlântico Norte.
         

         Naid, ainda sem entender sobre o que Mara estava dizendo, começou a sentir uma coisa diferente dentro de si, um sentimento que nunca havia sentido antes quando ela falou: “assassinos da sua família”. Quando a família de Naid morreu, ele sabia que a guerra tinha seus efeitos colaterais. E quando aconteceu o que aconteceu, ele pensou que era um castigo da parte de Alláh por algo errado que poderia ter feito. 

Assim, se culpava pela tragédia, nunca chegou a imaginar que poderia haver um culpado por isso, como Mara lhe dizia, então, como que se tirassem um espinho que atravessava seu peito, ele sentiu um alívio, sendo substituído por um outro sentimento malígno de sangue, chamado vingança, e sua necessidade de culpar nunca foi tão grande.

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